A Jair Bolsonaro mais interessava o placar

A Jair Bolsonaro mais interessava o placar

Carlos Melo

10 de agosto de 2021 | 22h03

Foto: Gabriela Biló/ ESTADÃO

 

O desfile de blindados promovido pelo ministro da Defesa e pelo presidente da República, mais que fuligem, deixou no ar o sentimento de tristeza e impotência. Num clima de águas malparadas, o País mora no impasse. Quando isso ocorre, o vencedor é sempre o constrangimento. E o dia foi de muitos constrangimentos: da sociedade, da economia, dos Poderes e até mesmo dos militares – as Forças Armadas do Brasil mereciam outro destino.

O vexame democrático e institucional é inegável e não tem como voltar atrás.  Agosto é mesmo mês de desgosto e são quase três anos de “agostos”. A repercussão internacional dos tanques envelhecidos, enchendo a Praça dos Três Poderes de fumaça, foi péssima. Essa desinteligência retrai investimentos, afeta a economia, reduz qualquer esperança. Empresários e operadores de mercado já se dão conta de que, desse modo, o Brasil não irá longe.

A índole autoritária do presidente é superlativa. Mas, não resulta em vitórias claras, nem avança na direção de seus próprios objetivos. O desfile militar no dia da votação da PEC do voto impresso foi, antes de tudo, um tiro no pé, pois deixou claro que se trata de um governo sem direção estratégica, que não disputa projetos, não tem visão de futuro ou sentido de República e de Estado. Menos ainda de democracia. Resume-se não à disputa do Poder, mas à manutenção do status quo.

Um governo forjado na truculência e, para sorte do País, também no improviso. Foi assim sua tentativa de pressionar o Congresso. Nas últimas horas, a intimidação vinha também por meio de pastores, ministros, verbas e pelas redes bolsonaristas. Após tanto desgaste, a disputa deixou de ser pelo resultado, mas pelo placar. Sendo a derrota inevitável, para Bolsonaro era importante não levar goleada. No papel de vítima de um complô, poderia se agarrar à retórica da fraude eleitoral. É seu refúgio e única bandeira. No entanto, às mancheias, das redes sociais brotaram memes de ironia e sarcasmo: sabe-se que do abismo e do ridículo não há volta.

Em tempo: Assim, a Câmara votou dividida entre deputados afirmativos, revoltados, constrangidos, oportunistas e pusilânimes. O placar não foi avassalador, pelo contrário: a pressão do governo foi mais que relevante, embora não tenha atingido o número para mudança constitucional. Impassível, o constrangimento seguirá sua trajetória. Pressões sobre os Poderes e sobre a sociedade desfilarão pelo País, é da natureza de Jair Bolsonaro e de seus seguidores. Resta um silêncio apreensivo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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