A coletiva de Temer

A coletiva do presidente Michel Temer revela -- e quer consertar -- erros de precipitação, cálculo e postura. Os créditos políticos do governo são escassos. Melhor cuidar para não aumentar o passivo.

Carlos Melo

27 de novembro de 2016 | 15h38

A coletiva a que o presidente da República se viu obrigado a conceder neste domingo é prova cabal de que “A crise Calero” — na verdade, “A crise Calero-Geddel-Temer” — assustou ao Palácio do Planalto, que agora procura remediar erros, diminuir prejuízos e recompor (?) a credibilidade, sem saber se isto é ainda realmente possível — afinal, quem apareceu na TV não foi nem Tancredo, nem Ulysses, nem Mário Covas; mas Temer, Renan e Maia.
A precipitação em defender o indefensável quiproquó em que o secretário da Presidência, Geddel Vieira Lima, se envolveu cobra altos juros; as denúncias contra o ex-ministro são “bobagem” — como disse, Geddel — apenas para quem está envolvido em questões piores. Ademais, no clima em que o país vive, pingo é letra. Não dá para ocultar o significado que cada gesto e cada omissão realmente têm e o sentido que podem assumir num clima tão complicado como o atual.
Pois então, a defesa de Geddel foi assim um tiro no pé porque só serviu para despertar o sentimento da opinião pública de que esta e outras questões denunciavam que a pretendida limpeza com o impeachment não se efetivou. E mais: se preparava, nos bastidores, um processo para aliviar a barra de quem está metido em corrupção.
Nas últimas semanas, gradativamente tomou corpo a desconfiança de que se tramava “a grande pizza”, aumentando o sentimento de repulsa à política que se faz hoje (e nos últimos anos) seja no Poder Executivo, seja no Congresso Nacional. Em virtude disto, Michel Temer & Cia vieram a público na tentativa de minimizar perdas; tiveram que correr.
Sem mais poder estancar o rolo em que foi envolvido por Geddel — o desgaste está dado –, o presidente  tratou de afirmar que não faria aquilo que a opinião pública começava a desconfiar que seria capaz de fazer: compactuar com a aprovação de nova legislação sobre o Caixa 2, anistiar políticos, melar o jogo da Operação Lava Jato. Temer  deixou-se esquecer que da Mulher de César sabe-se bem o que se espera, afinal.
Pesquisas e a sensibilidade tardia certamente detectaram o enorme descontentamento na opinião pública — as redes sociais esquentaram muito, no decorrer da semana — e, com isso, a possibilidade de uma nova rodada de mobilizações de rua contra o governo e o Congresso parecia  dada. Uma espécie de recall das mobilizações que abalaram e por fim removeram Dilma Rousseff assombra — com o agravante que agora reuniriam até os favoráveis à ex-presidente.
O pronunciamento foi, portanto, preventivo. Quem tem nariz, tem medo!
Ainda assim, a sangria pode não estar estancada. Marcelo Calero tem afirmado possuir, sim, gravações para provar que foi pressionado — gravações com Temer, inclusive. Sabe-se lá o que pode vir por aí. Isto ele mostrará  à noite, no Fantástico, em entrevista que concedeu a Renata Lo Prete. Além disto, os conflitos entre parte da classe política e a Lava Jato são inconciliáveis.
Mesmo que as “falas” de Temer não comprovem nada, o fato de o presidente ter-se deixado envolver numa trama de interesses particulares foi mesmo de lascar! Um erro primário. Permitir dúvidas de que seria capaz de se articular a isto e em torno dos piores interesses do Congresso já conformam um sério “passivo” a quem ainda não adquiriu bom suporte de crédito.
Problemas de comunicação? Somente isto? Penso que não. Problemas de esgotamentos e colapsos políticos mais sérios e profundos. Bobagem mesmo é querer tapar o sol com a peneira.
Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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