Um partido para chamar de meu

Gilberto Amendola

23 de agosto de 2012 | 23h45

Tive que esquecer Marx, o Groucho, e entrar para um clube que me aceitasse como sócio. É que, de acordo com a legislação eleitoral, quem quer ser candidato a vereador precisa ter ao menos um ano de filiação. Logo, minha primeira providência, ainda em 2011, era encontrar um partido que me aceitasse em seus quadros.

Nem cogitei me filiar numa dessas legendas grandes. A chance de ser reconhecido por um assessor ou dar de cara com um político – que eu mesmo já entrevistei – seria muito grande. Também evitei as siglas de forte teor ideológico, que poderiam dificultar a candidatura de um recém-convertido.

Mesmo com essas restrições, a sopa de letrinhas partidárias sempre foi farta. Fiz algumas ligações: “Eu quero ser candidato a vereador no ano que vem e gostaria de me filiar ao seu partido…” As respostas eram sempre positivas e descomplicadas. Em boa parte dos partidos, a filiação poderia ser feita online. Ou seja, com zero contato pessoal e com nenhum questionamento sobre meu caráter, tendência ideológica ou time de futebol. Nestas mesmas ligações, perguntei sobre futuras taxas e custos de filiação. Quase todos falaram em gastos com advogados e outros procedimentos normais. Coisa, em média, de uns R$ 250.

Escolhi um partido que tivesse histórico de lançar candidatos desconhecidos à Câmara Municipal – não são poucos. Embora tivesse a opção de me filiar pelo site, decidi visitar a sede da tal sigla e reconhecer o território. Mais uma vez, pensei em Marx, o Groucho, e tudo o que eu queria era um disfarce no mesmo estilo do comediante: óculos, bigode, sobrancelha pintada e charuto.

Lá fui eu! “Oi, estou aqui para me filiar”, disse com cara de bobo. Na minha inocência, esperava ficar frente a frente com alguma liderança partidária, que me encheria de perguntas e até me poria medo. Nada disso.

Uma secretária pediu para que eu preenchesse um papel com informações básicas e pronto. A moça levou a ficha para uma sala e, 15 minutos depois, voltou com uma copia carimbada e um modelo de carteirinha de papelão.

Assim, nesse anticlímax acachapante, vinculei meu nome e vida (dramático!) a um partido político. Nada mais trivial e desimportante. Pronto, já posso pleitear a candidatura.

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