Tem gente trocando voto até por cerveja

Gilberto Amendola

04 de setembro de 2012 | 23h15

– Compre um tênis comigo que eu voto em você.

– Isso é crime!

– Mas fica entre a gente. Segredo nosso…

Tive essa rápida e reveladora conversa com a vendedora de uma loja de tênis durante o meu primeiro corpo a corpo como Candidato Acidental.

Além da simpática vendedora, teve eleitor querendo vender o voto por uma cervejinha. “Paga uma gelada aí, candidato. Mostra que você é firmeza.”

Acho que só um filósofo dos bons vai poder explicar essa falta de pudor do cidadão em tentar levar alguma vantagem (por menor que seja) daquele que, de acordo com o senso comum, irá levar muita vantagem durante os próximos quatro anos. É como se o eleitor dissesse: “Você me deve essa cervejinha, esse tênis…”.

Ainda sobre esse toma lá da cá eleitoral, um garoto, aparentando uns 13 anos, me abordou e disse que por apenas R$ 10 entregaria os meus santinhos pela vizinhança. Neguei a oferta e ganhei a dúvida sobre a seriedade da minha mãe em retribuição.

Aliás, o fato de o próprio candidato distribuir seus santinhos causou uma certa celeuma entre cabos eleitorais de um candidato a prefeito. “O senhor tem de contratar alguém pra isso. É a nossa hora de ganhar dinheiro. A sua vem depois”, disse uma senhora que estava trabalhando na panfletagem de um famoso político.

Mas nem tudo estava perdido: um morador de rua ofereceu-se, sem cobrar um tostão, para entregar meus santinhos. Como ele era do tipo que falava sozinho e tinha cara de bravo, dei uns 10 panfletos para o sujeito. Observei o homem abordar alguns pedestres – que, invariavelmente, desviavam ou aceleravam o passo. Sem conseguir atenção de ninguém, ele atirou meus santinhos para o alto. Não contente, pisou em cima.

Não foi uma cena bonita de se ver. Minha cara, ali, pisada e repisada no chão.

No corpo a corpo, pude notar reações clássicas. Por exemplo, educação e indiferença são coisas que se misturam. A maioria dos eleitores aceita receber o santinho, dá um sorriso e finge interesse. Mas, meio segundo depois, amassa ou deixa o papelzinho com o nome e o número do candidato de lado. Tem aqueles que também não disfarçam a cara de desprezo (e até nojo).

Lógico que ouvi algumas reações mais indelicadas: “Bando de ladrão” e “cambada de filho da p…” foram as mais comuns. Tentei não me abalar. Me mantive impassível. Sou um candidato com sangue de barata.

 

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