Saio da política para voltar ao jornalismo…

Gilberto Amendola

06 de outubro de 2012 | 23h27

Um cabo eleitoral que foi ao comitê do Candidato Acidental cobrar uma dívida de campanha encontrou o corpo do político soterrado sob uma montanha de santinhos. Embora o resultado definitivo da perícia só deva ser divulgado no próximo mês, as primeiras informações dão conta de que ele teria se afogado após um suposto mergulho nas profundezas do processo eleitoral.

Uma carta de despedida foi encontrada, pendurada com uma faca em um vandalizado cavalete: “Eu poderia, simplesmente, me retirar à francesa. Sair de cena tão logo o resultado da última urna fosse apurado e só reaparecer numa próxima eleição (como muitos dos meus colegas fazem).

Mas não vai ser assim, não. Ainda tenho algumas coisas pra dizer – e principalmente uma confissão pra fazer: ‘Eu não vou votar em mim’.

Não existe nenhuma intenção moralizante por trás desta confissão. O voto é seu. Faça o que quiser com ele. Mas eu escolhi votar em um candidato a vereador de verdade, um que não tenha entrado nesta disputa de forma ‘acidental’.

Acho que as mazelas que mostrei aqui, durante esses meses de campanha, só engrandecem aqueles que conseguem passar por esse processo sem manchar o próprio currículo. Não sei se os ‘bons’ são a maioria, mas, posso garantir, é possível encontrá-los por aí.

Não queria ir embora sem agradecer aos amigos, aos jornalistas, assessores e afins. De um jeito ou de outro, vocês ajudaram a manter o ‘segredo’ desta candidatura até o fim do primeiro turno. Cá entre nós, me desmascarar seria a coisa mais simples do mundo. Portanto, se eu soubesse como, estaria fazendo, agora, aquele horrendo coraçãozinho com as mãos (S2).

Todas as críticas também foram recebidas de bom grado e ajudaram no amadurecimento do projeto e do candidato – e, principalmente, produziram debate e fomentaram discussões (sérias ou bem-humoradas).

Antes que eu comece a ficar sentimental demais, fecho a conta desta eleição mergulhando nos meus próprios santinhos (numa referência explícita à morte do personagem Zé das Medalhas na novela Roque Santeiro, lembram?). Saio desta vida de candidato para voltar ao meu ofício cotidiano. Adeus”.

No enterro do Candidato Acidental, políticos de todos os partidos estiveram presentes – e disseram maravilhas a respeito do morto sem sequer conhecê-lo (“um democrata”, “um ser tomado pela nobreza do espírito público”…). A Câmara Municipal deve batizar uma viela escura ou um buraco de rua com o nome dele (assim que descobrirem qual é). Ele não deixou mulher, nem filhos.

Amigos do Jornal da Tarde ainda não sabem o que fazer com os cavaletes que sobraram no fundo da redação.

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