Que tal criarem um Vereador Esperança?

Gilberto Amendola

27 de setembro de 2012 | 23h23

A palavra que mais causa desprezo no eleitor é “doação”.

Como político iniciante, sem recursos ou patrocinadores, percorri ruas comerciais da zona oeste em busca de recursos para a minha campanha a vereador.

Constrangido, explicava ao comerciante que precisava de dinheiro para produzir mais materiais, como santinhos, adesivos e cavaletes – e que aquilo que havia sido fornecido pelo partido já estava no fim.

Além disso, deixava claro que a doação seria feita respeitando a legislação eleitoral.

Será que funcionou?

– E que vantagem eu tenho? – perguntou o gerente da ótica.

– Um vereador que vai trabalhar pelo comércio local.

– E pra que é que eu quero um vereador? Eu trabalho, pago meus impostos, dou duro, não preciso de vereador nenhum.

Tentei também uma pequena lanchonete. Entreguei um santinho e expliquei meus propósitos. A senhora que me atendeu não fez cerimônia em me advertir: “Esse pedaço de papel aqui não prova que você é candidato. Quem me garante que você não está tentando levar vantagem? Se polícia te pega fazendo isso, pode dar um problemão”. Avisei que ela poderia fazer uma consulta sobre minha candidatura na internet. Com um sorriso no rosto, ela disse que não tinha tempo e me mandou “passar bem”.

Na sua maioria, os comerciantes me recebiam com educação, aceitavam meus santinhos e até ouviam uma ou outra proposta tirada da cartola. O problema começava quando o assunto virava – e eu citava a hipótese de uma ajudinha financeira.

Em uma papelaria, a falante proprietária (ela quis saber sobre o meu partido e sobre quem eu estava apoiando para prefeito) ficou muda quando ouviu meu pedido de ajuda. Muda! Fechou a cara. Desconfio que tenha perdido totalmente a capacidade de se comunicar verbalmente com outro ser humano.

A reação mais educada acontecia quando o comerciante dizia que “o proprietário” não estava, e que eu deveria passar outro dia ou deixar o meu contato.

Em um alfaiate, ouvi um homem dizer. “Dinheiro não tenho nem pra mim. As coisas estão difíceis. Não sobra pra gastar com político, desculpa, viu…”. Tá desculpado.

O resultado da minha via-sacra por doações foi desastroso. Comecei com a conta vazia e terminei o dia com menos ainda. Quem sabe numa próxima eleição alguém não inventa o Vereador Esperança. Para doar R$ 5, ligue para…

 

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