Os riscos de panfletar diante do motel

Gilberto Amendola

07 de setembro de 2012 | 00h00

Ela me sugeriu um banho de quebra demanda com sete ervas: “No seu caso, é mais eficiente do que um banho de descarrego com sal grosso”.

Como todo candidato em busca do voto, visitei pequenos comerciantes da região em que tenho atuado. Não deixei, por exemplo, de testar meu carisma político em uma casa de artigos para candomblé e umbanda.

Respeitosamente, entreguei meus santinhos e pedi conselhos espirituais à vendedora de plantão. Além do banho, ela sugeriu que eu comprasse um chaveirinho de Ogum – que, garantiu, iria me ajudar nessas “andanças atrás do voto”.

Lá, fui informado de que muitos políticos fazem uso dos serviços espirituais de pais de santo – inclusive vereadores em pleno exercício de mandato.

Mesmo não comprando nenhum produto, saí da lojinha com o cartão de um desses profissionais. “Procura o pai de santo, filho. Ele vai te ajudar na campanha. Você precisa de proteção. Olha, um bom banho de ervas no dia da votação pode ajudar”, disse, por fim, a vendedora.

Por uma questão de equilíbrio religioso, fui panfletar na frente de uma igreja evangélica – justamente na saída de um culto. Neste caso, fui abordado por um pastor que, atenciosamente, recebeu o meu santinho. “Você é de Deus?”, ele me perguntou.

Ao perceber que eu não era exatamente um candidato religioso, o homem me recomendou frequentar o seu culto, conhecer os irmãos e, quem sabe, conquistar a confiança de alguns eleitores. Prometi pensar no caso e parti para outro nicho.

Estava eu andando com os meus santinhos a tiracolo quando me vi em frente a um motel. Mais do que isso. Estava na frente de um motel quando um carro saiu da garagem e “embicou” na calçada. Notando a janela aberta, não pensei duas vezes e, na maior cara de pau, ofereci o meu papelzinho. Claro, o casal tomou um susto e solicitou que eu guardasse meu material de campanha num lugar obscuro da anatomia humana.

Para fechar essa profícua caminhada, interrompi um animado jogo de dominó entre quatro aposentados, em uma pracinha perto do terminal Cachoeirinha, na zona norte. A reação de um dos idosos ao ver minha foto no santinho foi esquisita. “Você conhece o Silvio Santos? Devia pedir emprego pra ele. Acho que você tem jeito pra televisão”. Os outros três aposentados concordaram. Eu prometi pensar no caso – se a política não sorrir para mim.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.