Onde o político sempre será banana

Gilberto Amendola

18 de setembro de 2012 | 23h12

Não existe campanha sem uma visita do nobre candidato à feira. É nesse ambiente popular que o postulante a uma vaga na Câmara Municipal é sutilmente chamado de banana, abacaxi e de uma baciada de outras metáforas maliciosas. Claro que, comigo, não seria diferente…

Por entre as barraquinhas de uma famosa feira livre da zona oeste da capital, espertos feirantes tentaram me vender uma melancia.

– É para colocar no pescoço! – disse um deles.

As piadinhas continuaram na mesma pegada:

– Você é o candidato cebola?

–Por quê?

– Porque a gente vota agora e chora durante quatro anos.

Ou na barraca do peixe:

– Desculpe, candidato, mas aqui eu só trabalho com lula.

Eu sei, eu sei, vocês já entenderam que a vida de um candidato não é fácil e que os feirantes têm esse humor popular como arma. Mas, durante a caminhada, também pude ouvir uma demanda real e singela: a necessidade de colocação de banheiros químicos nas feiras.

– Olha, a gente que é homem… a gente se vira em qualquer lugar. Mas a minha mulher e minhas filhas precisam de um lugar decente para usar. A gente precisa muito de um banheiro aqui – falou um dos feirantes.

– Mas não adianta colocar um banheiro e deixar aqui. Ele precisa ser limpo ou substituído todo dia – completou outro trabalhador do local.

Mais adiante, um feirante experiente analisou, durante alguns segundos, meu santinho. Ainda em silêncio, pegou um caderninho, pensou um pouco, e anotou o meu número.

– Não precisa votar em mim. Quero que o senhor vote consciente – disse (é o discurso que uso em minhas panfletagens).

– Não é isso. Tô anotando seu número aqui porque vou jogar no bicho. Você é borboleta. Vai dar borboleta na cabeça – profetizou o homem.

Como candidato borboleta, abordei uma cliente que estava, tranquilamente, fazendo a sua feira. Ao entregar meu santinho a ela, ouvi o maior sermão da minha vida:

–Você devia ter vergonha. Um moço novo, cheio de saúde e bem apessoado querendo ser vereador. É uma vergonha, menino. Você devia estar preocupado em trabalhar e estudar pra ser alguma coisa. Alguma coisa boa pra essa cidade. Não um safado de um político!

Segurei a vontade de confessar a natureza da minha candidatura – pra ver se ela me absolvia disso tudo. Mas fiquei quieto. É mesmo muito difícil conquistar votos na hora da Xepa.

 

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