O primeiro grande teste e o medo do Google

Gilberto Amendola

27 de agosto de 2012 | 00h01

Meu primeiro grande teste como candidato a vereador foi participar de um encontro entre meus colegas de chapa e a liderança máxima do partido.

Neste evento, que aconteceu na sede da sigla, o presidente do partido explicou, em linhas gerais, quais eram as diretrizes básicas da nossa família: “Aceitamos, aqui, pessoas de todos os tipos e crenças. Só não aceitamos gente da religião do diabo”, disse, mas sem explicar do que se tratava essa tal religião do demo. “Também não temos nada contra os gays. Eles podem ficar lá com as coisas deles”, completou, mas não apontou quais seriam lá as “coisas deles” (discos da Gloria Gaynor, talvez?).

Durante todo o nosso encontro, o presidente manuseou um computador – o que me fez suar frio. Bastava uma simples consulta ao Google para que o dirigente descobrisse minha profissão, encontrasse algumas reportagens assinadas por mim e juntasse “lé com cré” – fora a quantidade de fotos em que apareço com algum copo na mão e cara de bêbado.

Até hoje me pergunto como ninguém naquele partido teve a ideia de dar um Google e saber mais sobre seus candidatos a vereador. Sorte?

O fato é que, felizmente, ele não fez pesquisa nenhuma – e pude ouvir anônimo o seu discurso. Em geral, foram dicas de como conquistar o voto do eleitor, o que falar, quem citar e, principalmente como parecer simpático.

Uma das lições mais edificantes aconteceu na hora do cafezinho. Aprendemos que os políticos – e, por tabela, os candidatos – nunca devem aceitar se servir primeiro, deixando que o eleitorado o faça. Afinal, o cliente tem sempre razão.

O clima estava tão fraterno que o presidente garantiu que, se um de nós, naquela sala, fosse eleito, o segundo colocado teria direito a parte do mandato. Ou seja, o eleito teria de se licenciar para que o segundo colocado assumisse a vaga e sentisse o gostinho de ser vereador por um tempo.

Além disso, todos ali, de alguma forma, trabalhariam no gabinete do vencedor. Em São Paulo, cada vereador pode contratar até 18 assessores, pagando ao grupo até R$ 106 mil. Houve comoção geral.

Foi nesse momento que um colega de partido me chamou de canto e disse: “Eu tenho uma coisa pra falar…”

Pronto. Um ano de trabalho jogado fora. Ele devia saber de tudo, ter me reconhecido. A casa estava caindo.

CONTINUA…

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