O passado me condena

Gilberto Amendola

30 de agosto de 2012 | 17h41

Ele era tímido. Não, ele era esquisito. Sei, aquele que levou bomba na quinta série? O da  turma do fundão? Nunca achei ele muito certo. Ah, pensei que ele tinha virado jornaleiro. Não é casado? Não tem filhos? Xiii… Então, tenho certeza que eu vi o *** no horário eleitoral gratuito. Nossa! Pirou, coitado. Ele sempre foi assim…  

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A reação dos colegas de trabalho, familiares ou amigos próximos já está mais ou menos sob controle. Pra esses, tenho conseguido explicar, razoavelmente, os propósitos  desta candidatura.

Meu problema tem sido os amigos de infância. Gente que eu não vejo desde os tempos em que a Magda Cotrofe era a grande musa da tevê brasileira.

Pelo Facebook, recebi mensagens inusitadas de pessoas do meu passado. Aqui, alguns trechos:

– Quem diria…é você mesmo? Nunca imaginei você metido nisso. Mas parabéns. Boa sorte.

– Finalmente, um de nós chegou lá…

– Palhaçada, né?

– Se ganhar, me arruma uma boquinha, vai.

– Meu, tem um cara que é a sua cara no horário eleitoral!

Também penso muito nas pessoas que não se manifestaram. Em uma ou outra paquera, alguma menina que eu tenha gostado na sexta série, um professor mais exigente, uma irmã  (estudei em colégio de freira) mais escandalizável…

Minha família, que mora no mesmo lugar em que passei toda a adolescência, continua colhendo reações dos vizinhos (aqueles que me conheceram jovenzinho). Segundo eles, as reações seguem um roteiro marcadinho:

1º Confirmação:

(Acho que vi seu filho no horário eleitoral…)

2º Sorriso Amarelo

(Ah, que bom…Não sabia que ele levava jeito…)

3º   Escárnio (pelas costas)

(Sabe o filho da ****, se meteu com política. Quer roubar igual os outros).

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