O impulso de chutar o próprio cavalete

Gilberto Amendola

02 de outubro de 2012 | 23h19

Confesso que a vontade de dar uma “voadora” num desses cavaletes que enfeiam a cidade é bastante poderosa. Eu senti esse desejo me fervendo o sangue mesmo diante de um cavalete estampado com a minha cara de pau.

Sim, tive vontade de dar um chute na minha própria fuça.

Segurei os meus impulsos autodestrutivos e fui viver a experiência de levar meu cavalete para passear em algum ponto de São Paulo.

Minha primeira parada foi a Avenida Teotônio Vilela, na zona sul. Tentei deixar meu cavalete em uma praça, localizada na própria avenida. Infelizmente, militantes de outra sigla me impediram. “Se o seu partido fosse outro, não tinha problema. Mas esse aí a gente não vai deixar”.

Segundo a militante, ela já havia trabalhado para a minha legenda e “tomado um calote”. “Não me pagaram direito. Aliás, não me pagaram nem o lanche.”

Não adiantou argumentar. Eles eram maioria e, confesso, pipoquei. Resolvi andar mais um pouquinho e deixar meu cavalete onde eu fosse mais querido.

Em outro ponto, me deparei com um novo tipo de profissional: o cuidador de cavalete. O sujeito passa seis horas por dia vigiando o material de campanha do candidato. “Trabalho das 13h às 18h. Vou receber R$ 1 mil por mês.” O homem me contou que a presença dele era de suma importância para a preservação dos cavaletes. “A molecada passa chutando, rasgando e pintando o material. Comigo aqui, essas coisas não acontecem”.

Ele permitiu que eu deixasse meu cavalete próximo ao de outro candidato. “Só não vou olhar. Não dá pra trabalhar de graça”. Felizmente, no tempo em que meu cavalete ficou por lá, não houve nenhuma tentativa de vandalismo.

O meu inimigo foi o vento. Meu cavalete quase não parava em pé – e quase foi para o meio da avenida. Recebi dicas de cabos eleitorais mais experientes, que me sugeriram amarrar algo pesado na madeira para segurar o cavalete no chão.

Fui para São Miguel, na zona leste. Na famosa Praça do Forró, guardadores de carro também estavam usando o período eleitoral para conquistar um complemento de renda. “Por R$ 15, você pode deixar que eu cuido pro senhor”, disse o flanelinha. Lá, um morador de rua chegou a derrubar meu cavalete – queria “cinco conto” para o café.

Achei deveras difícil lidar com um cavalete. Decidi guardar o meu em um porão escuro. Lá, minha foto estampada no cavalete vai envelhecer – enquanto eu ficarei eternamente jovem.

 

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