O evangélico, o católico e o ateu

Gilberto Amendola

30 de setembro de 2012 | 23h00

Seria um pecado não disputar o voto religioso como qualquer outro candidato em campanha. Portanto, a oportunidade perfeita para testar o meu fervor eleitoral foi a abertura da ExpoCristã, no Anhembi.

Lá, abordei eleitores usando três discursos sutilmente diferentes: 1) “Olá, meu nome é fulano de tal, sou evangélico e candidato a vereador”; 2) “Olá, meu nome é sicrano, sou católico e candidato a vereador”; 3) “Olá, meu nome é beltrano, sou ateu e candidato a vereador.”

Ao me identificar como evangélico, uma eleitora perguntou de que igreja eu fazia parte. Titubeei, gaguejei e mandei um “da Assembleia”. Atenciosa, contou que já tinha um candidato certo, um pastor amigo da família, sujeito de confiança. “Mas boa sorte, viu. Quanto mais gente de Deus fazendo política, melhor”, disse.

Depois, abordei um senhor, mas me identifiquei como um candidato católico. Com paciência, o homem me explicou que aquele era um evento da comunidade evangélica e que, talvez, eu tivesse dificuldade para conquistar eleitores. “Uma coisa é certa: O senhor acredita em Deus. E eu também acredito. Então, não vamos brigar, não é”? Quando concordei com ele, o homem me disse que muitos católicos fazem críticas aos evangélicos – e que, por isso, a convivência nem sempre tem sido harmoniosa. “Essa é a razão dos evangélicos votarem em evangélicos”, resumiu.

Por fim, arrisquei me apresentar como um candidato ateu. “Abençoado, isso não é verdade. Sei que existe Deus em seu coração”, me disse uma moça. “Sem Deus, você não vai longe, meu filho”, completou outra mulher. Após ouvir sobre meu ateísmo, uma terceira eleitora pediu que eu aguardasse.

Pensei que ela fosse chamar um segurança ou um pastor. Ou seja, alguém que me arrancaria de lá ou arrancaria o ateísmo do meu corpinho mal-ajambrado. Nada disso: educada, me presenteou com uma Bíblia de bolso. Fiquei sem reação e envergonhado pelos meus pensamentos preconceituosos.

Mas não podia sair da Expocristã sem visitar o estande do movimento “Eu Escolhi Esperar” – que defende a manutenção da virgindade até o casamento. Me apresentei como solteiro, candidato a vereador e, principalmente, como alguém que “não conseguiu esperar”. Acho que desconfiaram da provocação e não tive muita atenção. “O importante é que você entendeu a importância dos valores da família.”

Mas político virgem? Seria um milagre, não?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.