No dia seguinte, eu era uma barata

Gilberto Amendola

15 de setembro de 2012 | 23h30

Quando certa manhã o Candidato Acidental acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Eu sei, Kafka não merece isso, mas o instante seguinte à minha aparição no horário eleitoral gratuito fez com que eu me transformasse em outra coisa – muito provavelmente numa barata.

Antes mesmo que eu tivesse tempo de fugir para as montanhas, as mensagens começaram a pipocar no meu Facebook e Twitter. “É você mesmo?”, “Você ficou louco?”, “Por quê?”. O celular também começou a tocar. Atendi umas cinco ligações e respondi a umas sete mensagens em menos de 15 minutos.

Meu mundo estava caindo.

Tive que apagar incêndio por incêndio. “É pra valer? Não é pra valer? Pode votar em você? Não pode votar em você? E se você ganhar?” Ex-colegas de escola e faculdade ressurgiram das catacumbas para se certificarem que um conhecido distante havia enlouquecido e entrado para o baixíssimo clero da política.

O sentimento de “vergonha alheia” também brotou entre os amigos mais próximos. Eu mesmo, óbvio, me senti descolado daquela pessoa que apareceu na televisão. Eu ficaria horas aqui fazendo filosofia de boteco sobre “me assistir no horário eleitoral”. Vou parar, prometo.

A primeira hora pós exibição do programa eleitoral foi uma montanha-russa: euforia, arrependimento, diversão, medo, dúvidas, apoio, críticas, bullying e sei lá mais o quê.

O que aconteceu depois foi um anticlímax. Fora desse micro universo, formado por família, amigos (reais e virtuais) e jornalistas, meus quatro segundos de televisão não reverberaram.

Sim, fui reconhecido na rua – mas por uma pessoa que já tinha me visto antes, alguém que, ao me assistir no horário eleitoral, certamente pensou: “Acho que eu conheço esse maluco…”

No mais, pura paranoia. Se alguém sorri perto de mim, já enxergo uma crítica; se alguém me olha enviesado, penso na minha candidatura. Sou o centro do mundo… Não, né? Nada a ver. Na vida real, ninguém dá bola.

Os candidatos iniciantes, sem dinheiro para campanha de rua ou forte base eleitoral em alguma região da cidade, se iludem com a tal força da TV. A exposição midiática, sozinha, significa muito pouco. Aquela merreca de tempo, onde você repete nome, número e, com sorte, um texto sobre um arremedo de proposta, só vai te fazer mais popular entre aqueles que já te conhecem. E vão rir de você.

 

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