Filiado ou não, eis a aflição

Gilberto Amendola

26 de agosto de 2012 | 00h01

Quando eu já dava minha candidatura como certa – e meus apoiadores imaginários já formulavam minhas propostas de faz de conta –, eis que meu nome não aparecia na lista de filiados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). De acordo com as regras, sem o registro de filiação (um ano antes das eleições), eu não poderia iniciar minha carreira política.

Por quatro meses, vivi a incerteza do meu registro. Os contatos telefônicos com representantes da sigla eram inúteis. Ninguém parecia saber o que havia acontecido com a minha filiação. Óbvio, perderam! Perderam aquele bendito papelzinho no qual eu entregava minha alma ao diabo, digo, partido político.

Desanimei, mas não desisti. Voltei à sede da legenda e me reuni com um assessor. Um tsunami parecia ter devastado a mesa do sujeito. “É tudo comigo! Os caras fazem m%&*$@ e eu é que tenho que resolver. O seu não é o único caso, p%$#&! É de f*&$#@!” Em meio a tão edificante discurso, minha ficha foi encontrada embaixo de uma pilha de documentos. “Não se preocupe. Pode deixar. Nós vamos dar um jeito nesta b$%”!

O próximo passo foi providenciar alguns documentos. O mais difícil de encontrar foi o meu comprovante de escolaridade (o de segundo grau – já que havia omitido minha formação em jornalismo). Vocês vão concordar comigo, só a mãe da gente pra guardar uma coisa dessas…

Claro que, ao pedir uma cópia autenticada do diploma de segundo grau, tive que responder “pra que é que eu queria aquilo”. Ao revelar minha candidatura, causei um pequeno reboliço familiar – e precisei responder a um duro questionário: “A gente pode votar em você?”, “É perigoso?”, “Você pode ir preso?”, “Quanto ganha um vereador?”, “Se eleito, você empregaria um parente?” Mais perguntas do que na filiação.

Outra providência foi tirar a foto que seria usada nas urnas eletrônicas. Tipo aquelas do Monteiro Lobato e da Elis Regina que apareciam nas propagandas.

Pra isso, pensei em me disfarçar um pouco. Adicionei dois adereços fundamentais, mas não vou revelá-los por ora.
Posso dizer apenas que fiquei com um ar meio de professor de história do ensino médio (de escola pública, claro); ou com jeitão de um sujeito que, mesmo perto dos 40 anos, continua virgem e ainda mora com a mãe; ou, na pior das hipóteses, um desses malucos que entrariam atirando em repartições públicas. Acho que preciso de um assessor de imagem urgente.

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