Enfim, a TV. Mas nem pensar em fala própria

Gilberto Amendola

11 de setembro de 2012 | 23h38

Chegou o dia que eu mais temia: a gravação do horário eleitoral gratuito.

A partir de agora, o caminho é sem volta. Quando a minha cara aparecer na televisão, a candidatura irá ganhar uma visibilidade perigosa. E eu, sinceramente, não sei como lidar com isso.

A gravação, que estava marcada para um sábado de manhã, só começou após as 13h. Por um problema de comunicação do partido, nem todos os candidatos estavam de terno. O resultado disso é que precisei, não sem algum receio, emprestar minha beca para um colega de sigla.

Cada candidato gravou sua fala individualmente, de modo que não pude assistir à performance alheia. Na minha vez, fui submetido a uma rápida sessão de maquiagem e à vergonhosa aplicação de laquê. Tive medo de que, à revelia, pintassem meu cabelo de acaju.

Depois de embelezado, trouxeram-me o texto que eu deveria repetir. Protestei. Eu tinha meu próprio discurso em mente. Minha ideia era pedir para que as pessoas votassem com consciência – e não necessariamente em mim. Não rolou. Tive que repetir uma frase atribuída a um líder do meu partido.

Tentei, juro que tentei, argumentar que a frase estava mal construída e redundante. Comentei que uma das expressões não soava bem e coisa e tal. Não me deram atenção.

Também gravei meu nome e número – além da bendita frase, relacionada à educação.

O curioso é que, em tese, eu seria o vereador da cultura. Mas como a legenda não tinha nenhuma proposta para a área, me empurraram, por aproximação, o tema “educação”.

Gravei três takes. Tudo de primeira. O diretor disse que ficou ótimo, mas o que eu mais queria era encontrar um buraco para me enterrar. Vou aparecer na televisão, travestido de político e repetindo um texto ruim.

Segundo o partido, a gravação também estará disponível na internet e nos programas de rádio.

A obrigação de repetir um texto já escrito tirou dos candidatos a possibilidade de mostrar suas próprias ideias, mas também poupou os eleitores de ouvir absurdos como o do candidato que queria, segundo o próprio me contou, gritar “aqui é Timão”, depois do seu nome e número. O diretor do programa ainda proibiu um candidato de aparecer com um crucifixo pendurado no pescoço.

Já havia concluído minha participação quando um membro do partido apontou em minha direção e disparou: “Você é um espião…” Gelei. Continua…

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