Como colocar o doce na boca do eleitor

Gilberto Amendola

16 de setembro de 2012 | 23h30

Nesta altura da campanha, eu não deveria mais me surpreender com nada. Mas ouvir uma presidente de associação de bairro pedindo mil reais para ajudar esse nobre candidato que vos escreve vai além da minha capacidade de abstração.

O que aconteceu foi o seguinte: liguei para uma associação de moradores de um bairro no extremo da zona leste, com o objetivo de agendar uma visita à região, conhecer os problemas dos moradores do lugar e me apresentar.

A simpática senhora foi logo dizendo que estava “acostumada a trabalhar com candidatos” – e que seria capaz de mobilizar a vizinhança e me arrumar uns dois mil votos.

Já desconfiando do caminho que aquela conversa poderia tomar, perguntei: “Quanto?”

– Mil para a presidente, que sou eu, e mais quinhentos reais para cada um da equipe. Eu começo trabalhando com 10 pessoas. Na boca de urna, arrumo mais de 50 –, diz a presidente.

A mulher ainda diz que eu poderia participar de uma entrega de leite na comunidade (leite esse que é distribuído pelo governo do Estado). Mas a cereja do bolo foi a sugestão de que eu poderia me aproveitar de uma festinha infantil de Cosme e Damião, organizada por ela, no próximo dia 27. “A gente faz uma sacolinha de doces e entrega para as crianças. Dentro da sacolinha, vai um santinho do senhor”, promete.

Perguntei se, nas eleições anteriores, outros políticos tinham participado da tal festinha infantil. “Claro. Ajudei a eleger um candidato a deputado federal em 2010”. A senhora ainda mostrou uma certa indignação ao me contar que alguns candidatos querem que ela ajude na base da amizade. “Aqui não tem amizade. Política não tem amizade, não”, avisa.

Ela não foi a única presidente de associação que me sugeriu algo assim. Outro representante de moradores, também da zona leste, deixou no ar a possibilidade de pedir votos para minha candidatura se eu arrumasse material esportivo para a comunidade que ele representa. É toma lá dá cá na veia!

Agora, seria injusto não contar que também encontrei associações que me ouviram e que até me ofereceram seus espaços para possíveis reuniões. Algumas lideranças me deram conselhos e disseram que a política da cidade precisa de sangue novo.

Tive a oportunidade de ouvir palavras de incentivo e uma definição para a minha campanha. “Você não me parece um político profissional, mas alguém que gosta da cidade”. É nóis!

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