A fé que move montanhas e votos

Gilberto Amendola

29 de agosto de 2012 | 00h03

Se eu bem me lembro, a coluna da última segunda-feira terminou quando um colega de chapa me chamou de canto para dizer: “Eu tenho uma coisa pra te falar…”

Achei que seria desmascarado no meio da minha primeira reunião partidária. Sei lá, vai ver eu já entrevistei a figura em outra circunstância ou vida.

Felizmente, o (ou a) concorrente tinha algo muito mais íntimo para contar. Tratava-se de um sonho em que ele aparecia discursando para uma multidão. “Só pode significar uma coisa: serei eleito! ”

Na mesma reunião, outro aspirante a político me contou que tinha um plano infalível para fazer o partido conquistar mais da metade das 55 cadeiras na Câmara Municipal. “É uma questão de empenho e fé. Você tem de acreditar.”

Como decidi manter o meu colesterol de mentiras no nível mais baixo possível, confessei ser um candidato de pouca fé – e que estava nessa empreitada apenas para “observar e aprender”. Minha sinceridade valeu o desprezo de alguns colegas – que desde sempre se tratavam como “vereadores eleitos”.

– Hellôôôôôuuuu! (Pensei, mas não disse).

Mesmo abraçado ao meu ceticismo, não deixei de nutrir alguma simpatia por aquele grupo.

No partido a que estou filiado, os candidatos são donas de casa, pastores evangélicos, feirantes, desempregados, profissionais liberais e, é claro, aqueles tradicionais “zé louquinhos” (toda legenda que se preze tem uma cota deles).

Sabe quando você é criança e seus pais insistem que você tem talento para cantar, dançar ou representar? Pois então, a maioria dos meus colegas de partido parece sofrer desse autoengano. São pessoas queridas em seus bairros ou condomínios que, uma vez na vida, já ouviram de alguém que “dariam” um bom vereador.

Ao perceber o nível desmedido de empolgação dos meus pares, o líder da legenda fez questão de pedir aos nobres candidatos que não se “enfiassem” em dívidas para tentarem se eleger, contando histórias de pessoas que perderam até o teto. “Não façam isso!”

Além dos bem-intencionados, encontrei aqueles que claramente estão apenas tentando disputar um empreguinho, uma colocação melhor na vida.

Em nenhum momento da reunião, os candidatos falaram sobre o que pensam de política ou apresentaram suas próprias propostas – creio que muitos, ali, sequer sabiam quais são as prerrogativas de um vereador.

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