A democrática solução do ‘par ou ímpar’

Gilberto Amendola

30 de agosto de 2012 | 23h44

O homem já esteve na Lua, mandou um robozinho pra Marte, clonou animais, criou leis sofisticadas, máquinas incríveis e computadores poderosos, mas nada disso foi capaz de substituir uma das mais antigas formas de resolver um conflito humano: “o par ou ímpar”.

Dias antes da convenção partidária, candidatos a vereador e a direção da legenda se reuniram para uma decisão fundamental: escolher números de urna.

Que candidato não quer uma sequência fácil de decorar? Um daqueles números que o mais “distraído” dos mortais pode lembrar naquele momento fatídico de apertar o verde e confirmar.

Por isso, o líder do partido foi logo avisando: “Se um número for desejado por mais de um candidato, a decisão será na base do par ou ímpar”.

Olho para o lado e vejo um colega rabiscando, freneticamente, números em um papel – fazendo contas de somar e algumas divisões. Ao notar minha curiosidade, ele se adianta e explica. “Eu tenho um toque com um número. Tudo na minha vida tem de ter esse número. O endereço da minha casa, meu telefone, conta de banco. Se não for o tal número, eu somo e divido até a conta terminar nele.”

Depois de alguma discussão, muxoxos variados e frases como “você quer copiar meu número” e “eu sempre quis essa sequência”, os aspirantes à vereança escolheram seus dígitos.

Já a convenção partidária aconteceu em um final de semana. Os candidatos foram incentivados a levar seus familiares e amigos para aquela que seria uma grande confraternização – com direito a lanchinho e refrigerante.

Passei parte da convenção tentando me esquivar dos fotógrafos que registravam o encontro – e tive de me esconder no banheiro quando uma equipe de TV chegou para registrar imagens e entrevistar o candidato a prefeito. Felizmente, nenhum conhecido meu foi cobrir o evento. Escapei dessa.

Na convenção, conheci candidatos de outras cidades, principalmente do litoral. Na maioria das vezes, os colegas desses municípios queriam saber se eu tinha parentes e amigos que pudessem apoiá-los nas cidades deles; e, em contrapartida, eles me indicariam parentes em São Paulo que poderiam votar em mim. Tudo bem amarradinho. Sem nenhuma chance de erro. Me senti eleito.

Os próximos passos seriam decisivos: ter meu CNPJ de candidato (e abrir minha conta bancária eleitoral) e receber meus próprios santinhos…

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