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Volta às aulas na fase ômicron: por que seguir defendendo o retorno presencial?

Marcela Trópia é graduada em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e pós-graduada em Liderança e Gestão Pública pelo CLP – Centro de Liderança Pública. Em 2020, foi eleita vereadora pelo partido NOVO em Belo Horizonte com 10.741 votos, sendo a sexta mais votada da cidade.

01 de fevereiro de 2022 | 14h35

A pandemia do coronavírus no Brasil revelou uma série de deficiências nas nossas políticas públicas, mas provavelmente a área que mais sofreu com a negligência de gestores ao redor do país foi a educação. Desde 2020, estudantes brasileiros vivem na incerteza se vão voltar a frequentar suas escolas e já acumulam impactos não apenas em sua aprendizagem, mas também em suas saúdes física e emocional. Esses reflexos negativos vêm sendo medidos pelas pesquisas e censos educacionais, mas a dúvida em relação ao retorno presencial para ano letivo de 2022 ainda paira em diferentes municípios ao redor do país.

Em 2020, quando a comunidade internacional já discutia o retorno seguro das aulas presenciais antes do início da vacinação em massa, grande parte dos gestores públicos decidiu aguardar a imunização do grupo de professores. Ainda que organizações que são referência na educação como a Unicef e a Unesco não condicionassem a reabertura a esse fator, só vimos gestores públicos cogitarem a reabertura em meados de 2021. 

Depois, houve quem argumentasse que o ano letivo já estava no fim e que não valia a pena retornar para ter apenas dois meses de aula. Nessas idas e vindas, em que a urgência de garantir o acesso à educação para crianças e adolescentes foi colocada em segundo plano, o Brasil alcançou uma média de 279 dias de escolas fechadas, como confirmou o Censo Escolar de 2021. Para se ter ideia, Chile e Argentina registraram 199 dias. No México, foram 180 dias de paralisação, enquanto França e Portugal contabilizaram 43 e 67 dias, respectivamente. 

A chegada da variante ômicron trouxe de volta a incerteza sobre o retorno presencial. Enquanto deveríamos estar focados em recuperar o tempo perdido, investindo no reforço escolar e fazendo a busca ativa dos jovens que abandonaram seus estudos, os municípios adiam o retorno das aulas. Mais uma vez, a realidade nos mostra que priorizar a educação ainda permanece como um discurso floreado e vazio, que não se consolida nas decisões de políticos e gestores públicos.

Duas semanas fazem muita diferença 

Há quem defenda que uma ou duas semanas de adiamento, a fim de aguardar a vacinação completa dos estudantes, não fará diferença. Mas, para crianças como as de Belo Horizonte, essas semanas se somam a mais de 400 dias sem pisar na escola. Em um contexto em que grande parte das famílias não têm estrutura para garantir o acesso ao ensino remoto com qualidade – nem equipamentos, nem conectividade – como é o caso do Brasil, ficar tanto tempo fora da escola significa uma inevitável queda de aprendizagem. Além da tremenda frustração de iniciar mais um mês de fevereiro sem o retorno presencial garantido.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, que analisou dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), revelou que os alunos brasileiros nitidamente deixaram de aprender em matemática e em português em 2020, sendo que os mais prejudicados foram os do Ensino Fundamental. Os estudantes dos anos finais dessa fase tiveram, em média, uma queda equivalente a voltar para a proficiência brasileira de três anos atrás em Português e Matemática.

É preciso pensar não apenas no número de dias letivos adiados, mas principalmente no processo educacional interrompido por mais duas semanas. Outra análise da Fundação Getúlio Vargas identificou que a alfabetização no Brasil retrocedeu 15 anos durante a pandemia, com alunos de 5 a 9 anos acumulando os piores números de queda de aprendizagem. 

Apenas esses dados deveriam ser mais do que suficientes para reforçar a urgência de colocar a educação em primeiro lugar, mesmo em cenários mais instáveis da pandemia. Mais do que nunca, precisamos que o setor público esteja comprometido com a recuperação dessa perda de aprendizagem, garantindo mais tempo e recurso investido no reforço escolar dessas crianças e adolescentes. 

A educação brasileira não tem tempo a perder

Os impactos da negligência com a educação são evidentes e críticos nos estudos que medem a aprendizagem dos alunos, como citado acima. Mas, há uma outra face dessa história que preocupa os especialistas: a evasão e o abandono escolar. Conseguir manter os jovens na escola até o final da educação básica já era um problema antes da pandemia. Agora, com os desafios impostos pelo ensino remoto, a incerteza do ensino presencial e a necessidade de compor a força de trabalho das famílias, o aumento do número de jovens que desistem de estudar é alarmante.

No entanto, outra estatística do abandono escolar no Brasil traz preocupação. Dados do Censo Escolar 2021 (INEP), revelam que mais de 650 mil crianças de até 5 anos deixaram as escolas e creches brasileiras entre 2019 e 2021. Pela primeira vez, desde 2005, as matrículas caíram na educação infantil, colocando o Brasil mais longe de alcançar a meta do Plano Nacional de Educação de ter 50% das crianças de zero a três anos matriculadas nas creches. Esse dado escancara o desafio de alfabetização que temos pela frente.

Adiar a volta às aulas não pode ser uma opção 

Diante desse cenário tão preocupante, não restam dúvidas de que adiar o retorno presencial do ano letivo de 2022 não deveria sequer ser cogitado pelos gestores públicos. Se a justificativa é incentivar a vacinação, por que não aproveitar a escola como ambiente de conscientização a respeito da importância da imunização? A comunidade escolar pode ser uma parceira importante nesse processo.

A volta às aulas presenciais precisa acontecer em conjunto com o plano de vacinação, em vez de ser condicionada ao seu encerramento. É preciso relembrar que, mesmo sem vacinas, a reabertura já deveria ter sido prioridade, como garante o Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Segundo porque, como vimos acontecer ao longo da pandemia, a vacinação pode atrasar por fatores que fogem do controle dos gestores estaduais e municipais, e a educação das nossas crianças e adolescentes não pode ser colocada de escanteio de novo. 

A experiência de reabertura do ano passado comprovou algo que era a expectativa de muitos: a sala de aula e os ambientes escolares são espaços seguros e controlados, que respeitam os protocolos e são capazes de evitar ou controlar surtos de contaminação. Afastar o aluno da escola mais uma vez é passar uma mensagem clara para a sociedade que, ainda que famílias, alunos e professores tenham feito a sua parte, a educação segue em segundo plano, sendo negociada sem qualquer constrangimento por alguns atores políticos. É chocante pensar que, começando o terceiro ano de combate à Covid-19, precisamos trazer de volta o mote que repetimos desde o início: a escola deve ser a primeira a abrir e a última a fechar. Mas faremos isso enquanto for necessário, pois nossas crianças e adolescentes não podem mais esperar.

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