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Um empurrãozinho para as vacinas

Eduardo Bizzo de Pinho Borges é economista pela UERJ, especialista em gestão ambiental pelo NUMA/UFPA, mestre em administração pública e doutorando em administração, ambos pela FGV/EBAPE. É também gerente no BNDES. Erick Elysio Reis Amorim é mestre em economia do setor público pela UnB e doutorando em administração na FGV/EBAPE. Ele também é líder MLG, pelo Master em Liderança e Gestão Pública. Possui experiência em regulação, concessões, saneamento, finanças públicas e planejamento urbano. É servidor federal concursado.

19 de julho de 2021 | 11h10

Os epidemiologistas, cientistas que mais devem ser ouvidos em uma pandemia, afirmam que é necessário ultrapassar a meta de 70% da população vacinada para chegarmos a um nível seguro de imunidade coletiva. Superar esta meta permite maior segurança para o retorno às atividades econômicas e sociais, mas depende de equacionar desafios de duas naturezas: de oferta e de demanda.

Em relação à oferta, a solução é mais óbvia, embora nada simples. Um país deve dispor de vacinas em número suficiente nos postos de saúde para ofertar à população. É razoável supor que nos próximos meses chegaremos na situação em que outros países, como EUA, Chile e Israel, estão desde maio: quem quiser se vacinar, terá vacina disponível, e poderá, inclusive, escolher qual dos imunizantes tomar.

Já o desafio da demanda pode ser decomposto em, pelo menos, duas questões a serem endereçadas: (i) ser contrário a qualquer vacina (o caso do antivacina) e (ii) querer se vacinar apenas com determinada vacina em detrimento de outras (o caso do sommelier de vacina). Entender as formas de pensar, julgar e decidir que estão por trás de cada um desses comportamentos pode ajudar os gestores públicos a escolher medidas efetivas que influenciem a população a tomar a atitude socialmente esperada: vacinar-se com a vacina disponível.

No caso do antivacina, podemos elencar ao menos dois motivos para alguém ser contrário a uma vacina: desconhecimento ou convicção ideológica. Em relação à diferença dos efeitos de certas medidas dada a motivação individual, vamos considerar a relevância da estratégia de comunicação sobre a importância e efetividade das vacinas.

Pela teoria do raciocínio motivado, desenvolvida na psicologia e mais recentemente aplicada às ciências sociais, indivíduos com posições pré-existentes com forte valor emocional, quando confrontados com informações contrárias a tais posições, podem se tornar ainda mais defensores e convictos em relação a elas. Isto acontece pois, irracionalmente, tal indivíduo tenta se “proteger” do desconforto emocional de receber uma nova informação conflitante com a sua posição. Resultado: ele nega a nova informação.

Em resumo, no caso de uma campanha de comunicação a favor da vacinação, quem é contra a vacina simplesmente por falta de informação pode ser convencido a se vacinar mais facilmente. Já aqueles ideologicamente contrários à vacina podem reforçar ainda mais sua convicção antivacina ao receberem a informação da campanha.

No caso do sommelier de vacinas, a estratégia de comunicação pode ser positiva. Diferentemente do indivíduo que decide não se vacinar, quem escolhe a vacina provavelmente não é ideologicamente contra a vacinação, apenas pressupõe que uma vacina é melhor que a outra (muito embora exista a possibilidade de ser contra alguma vacina por motivo ideológico). As campanhas de comunicação direcionadas a este indivíduo devem esclarecer que esta percepção não é adequada, uma vez que pesquisadores têm reiterado que taxas de eficácia não são comparáveis diretamente.

Isso porque essas taxas advêm de estudos com metodologias distintas, realizados com populações diferentes, em momentos diversos da pandemia e sem, necessariamente, considerar as variantes do vírus. Outro parâmetro que poderia ser utilizado nas comparações entre as vacinas, os efeitos adversos são, em geral, raros e leves. Por isso, estes efeitos também não deveriam ser levados em conta. Além de informar que taxas de eficácia não são comparáveis e que efeitos adversos não são relevantes para a escolha, estas campanhas devem enfatizar que o comportamento de escolher vacinas, é não só prejudicial coletivamente como ruim para o próprio indivíduo que escolhe. Se outras pessoas fazem o mesmo, contribui-se para o atraso na vacinação da população em geral e para o esgotamento da oferta de uma vacina tida como “mais bem quista”. Com isso, a taxa de cobertura vacinal fica prejudicada, podendo deixar quem escolheu a vacina, individualmente, em uma situação pior do que se não tivesse escolhido. Esta situação possui paralelo com a tragédia dos comuns, conceito bastante estudado e debatido nos últimos anos tendo inclusive dado o primeiro prêmio Nobel de Economia a uma mulher, Elinor Ostrom, com sua abordagem alternativa à teoria.

Pela perspectiva da tragédia dos comuns, em situações em que os indivíduos agem racionalmente em busca de algo que entendem que os levaria a uma condição melhor individualmente, o desdobramento coletivo das ações individuais deixa todos em uma situação pior. No caso da escolha por uma suposta melhor vacina, se muitos outros repetirem este comportamento, a cobertura vacinal tão esperada de 70% fica mais longe, podendo deixar a própria pessoa que escolheu qual vacina mais suscetível a se contaminar e evoluir para alguma forma mais grave da doença. Coletivamente, ainda se abre espaço para o surgimento de novas variantes que podem “furar” a proteção de uma ou de mais vacinas.

Além das ações de comunicação, há um repertório de medidas possíveis. Entretanto, para serem efetivas, tais medidas devem primeiramente entender e depois endereçar o comportamento de quem não quer se vacinar ou daquele que decide escolher vacinas. Há alguns exemplos bem-sucedidos dentro e fora do país, sendo as políticas de incentivo e comunicação as mais comuns. Algumas delas poderiam ser classificadas como políticas de nudge (ou “empurrãozinho”), conceito popularizado por economistas comportamentais como o Nobel de Economia Richard Thaler. Nos EUA, há campanhas de comunicação agressivas, inclusive com o novo presidente alertando para a importância individual e coletiva da vacinação. Ainda há incentivos como transporte grátis, cerveja ou mesmo loterias milionárias. No Brasil, os incentivos do tipo são ainda mínimos, como, por exemplo, o realizado pelo Estado do Maranhão que lançou uma loteria exclusiva para os vacinados.

Seguindo um dos ensinamentos de Thaler – de que as pessoas tendem a valorizar mais um bem quando são donos dele – é possível exemplificar um empurrãozinho adicional no caso de loteria ou prêmio. Comunicar que os moradores de determinada cidade possuem direito a certo brinde ou a participar de algum sorteio, mas que perderão este direito se não se vacinarem ou se escolherem vacina, pode ser mais poderoso do que dizer que quem é vacinado ou não escolhe a vacina ganha este direito.

Possivelmente tendo a ideia da tragédia dos comuns implícita em mente, diversos países “desenvolvidos” e democráticos (Chile, França, Israel, por exemplo) estão implementando o chamado “passaporte de vacinação”, onde apenas aqueles adultos vacinados podem ter acesso a bares, shows, shoppings, escolas etc.

No Brasil tivemos um movimento interessante contra o sommelier de vacina: prefeituras começaram a colocar no final da fila aqueles que, ao chegar a sua vez de se vacinar, resolveram não tomar a vacina em razão da marca do imunizante. Os resultados até o momento são encorajadores. Acreditamos que, dado que o povo brasileiro sofreu tanto com os efeitos da pandemia, o ideal fosse que o país pudesse se inspirar em várias democracias ao redor do mundo que implementaram o passaporte de vacinação. Este é o caso do projeto de lei que cria o Certificado de Imunização e Segurança Sanitária, já aprovado no Senado Federal e em tramitação na Câmara dos Deputados, apensado ao projeto da carteira de vacinação digital. Essa e outras medidas, ao considerarem as motivações dos indivíduos e seus efeitos sobre o comportamento, têm o potencial de, enfim, dar um empurrãozinho em direção à vacinação e evitar uma verdadeira tragédia comum a todos. Vacina no braço, qualquer é uma delas, é sempre a melhor estratégia. É a melhor forma de garantir a recuperação econômica.

*Este artigo é de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, a opinião das organizações às quais são vinculados

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