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Tragédias anunciadas

Humberto Dantas

14 de fevereiro de 2019 | 17h40

Texto de autoria de: Bruno Magalhães, gestor público, formado pela Fundação João Pinheiro e pela UFMG, com mestrado em Salamanca. Líder MLG, servidor público estadual em Minas Gerais, atualmente cedido para a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte.

 

Em 2018 estive na Finlândia para participar de uma escola de verão sobre democracia deliberativa. Tremenda experiência. Por ser o mês de julho, os dias se estendiam até por volta das três da madrugada e às quatro e meia o sol já nascia novamente. No entanto, apesar das temperaturas amenas, as conversas informais frequentemente mencionavam as agruras da estação oposta, marcada por baixas temperaturas, fortes ventos e dias curtíssimos, com pouca luminosidade. Curioso, perguntei a um colega se o inverno rigoroso afetava os serviços públicos como transporte, aeroportos, fornecimento de água, abastecimento, saúde ou mesmo a vida da população mais vulnerável (o que, claro, é um conceito bem diferente do nosso considerando a realidade nórdica). Surpreso, me respondeu: – “Claro que não. Se todo ano temos invernos rigorosos, seríamos tolos se não estivéssemos preparados.”

Ficou me olhando, um pouco intrigado. A princípio desgostei, silencioso. Um ou outro comentário genérico e cada um seguiu seu caminho. Mais tarde, a velha persiana do alojamento fornecido pela universidade de Turku cedia aos raios do sol que nunca se punha.

A resposta do Finlandês martelando na minha cabeça. Insone, sem rede – e sem ousar recorrer ao roaming – fiquei me perguntando: por que no Brasil ainda padecemos, com alguma frequência, de tragédias amplamente antecipáveis ou previsíveis? O que ainda não aprendemos?

Comecemos com a mais frequente de todas: os alagamentos e deslizes de terra decorrentes das chuvas. Todo ano chove muito entre dezembro e março em algumas partes do Brasil. Não é novidade, sabemos os cidadãos, sabem as autoridades públicas. E ainda assim, todo ano temos tragédias com mortes, prejuízos ao patrimônio público e privado, desabrigados, altos custos de segurança e saúde. A tragédia é certa, o prejuízo é alto, a solução é conhecida: reduzir os índices de impermeabilização do solo nos centros urbanos, interditar moradias irregulares em risco, oferecer novas condições às famílias, diminuir o lixo urbano nas ruas e bueiros etc.

Outra tragédia lamentavelmente comum são os incêndios com vítimas fatais. O episódio da boate Kiss em Santa Maria no Rio Grande do Sul chocou o Brasil e o mundo em 2013 ao matar 242 pessoas e ferir outras 680. Mais recentemente, o fogo do Museu Nacional no Rio de Janeiro destruiu relíquias históricas, um patrimônio irrecuperável para a humanidade. Ainda neste mês, o país se escandalizou com sucessivos incêndios, sendo o mais trágico o que tirou a vida de dez jogadores de base do Clube Regatas Flamengo, no Rio de Janeiro, ao qual se somam o incêndio que atingiu o alojamento em Bangu, levando dois atletas ao hospital, e o incêndio que destruiu um galpão da Usina Hidrelétrica Belo Monte. Esta última, felizmente, não feriu ninguém.

Ainda podemos falar de várias outras tragédias, desde os incêndios ambientais criminosos até a absurda incidência de acidentes aéreos com personalidades brasileiras, sendo a tragédia envolvendo o jornalista Ricardo Boechat mais um episódio da triste lista que contém nomes como Teori Zavaski, Eduardo Campos, Ulysses Guimarães, mas também a Chapecoense, Fernanda Vogel, Mamonas Assassinas. Não se deve deixar de mencionar, entretanto, a tragédia do rompimento de mais uma barragem de resíduo de minério em Minas Gerais, dessa vez na cidade de Brumadinho, cujo número de mortos já chega a 161 pessoas. Outras 155 estão desaparecidas. O Rio Paraopeba foi contaminado e ainda se espera avaliação definitiva sobre o risco de os rejeitos chegarem até o São Francisco. A tragédia, sob investigação dos órgãos públicos competentes, é uma desoladora recorrência do rompimento da barragem de Mariana que há apenas 3 anos deixou 19 mortos e contaminou o Rio Doce, cuja bacia abrange 230 municípios de Minas e do Espírito Santo. Diversas outras barragens correm risco de rompimento no Brasil afora.

Voltando ao porquê, penso que ao menos três razões se entrelaçam por uma explicação sobre nossa insolente submissão às tragédias anunciadas. A primeira delas é cultural: somos uma sociedade tendente a negligenciar riscos. Por cultura, refiro-me aqui ao significado amplo que se refere aos costumes, hábitos, lei, moral, artes e complexo de conhecimentos. Não só temos hábitos como dirigir falando no celular, atrasar vacinas ou exames médicos, mas frequentemente negligenciamos a necessidade de pareceres profissionais sobre temas como construção e reformas, segurança no trabalho, impactos ambientais, etc.

A segunda razão, de ordem técnica, diz respeito à pouca difusão e utilização de medidas de gestão de risco, seja no âmbito público ou privado. O risco consiste na probabilidade de que um evento indesejado venha a ocorrer associada às consequências desse evento. Gerenciar riscos significa ter conhecimento de tais probabilidades e controlar para que o indesejável não ocorra, e que, em ocorrendo, suas consequências sejam mitigadas. A gestão de risco, frisa-se, é parte indissociável da inovação, fazendo oposição à velha resposta burocrática da aversão ao risco pela repetição de rotinas. Soma-se a isso o fato de que as iniciativas apontadas como necessárias para a mitigação de riscos frequentemente são complexas do ponto de vista técnico, muitas vezes requerendo da organização a mobilização de habilidades que não estão estritamente no seu núcleo de competências.

A terceira e última razão é de ordem política. Não raro a gestão sabe o que deve ser feito, tem conhecimento dos riscos e das iniciativas necessárias para mitigá-los, mas não atua. Isso se deve ao duplo fato de que iniciativas de controle e prevenção de riscos são a um só tempo financeiramente custosas e politicamente estéreis. Ninguém aplaudirá liderança nenhuma por cumprir estritamente o seu dever básico de evitar que tragédias anunciadas aconteçam. E a tentação é grande de destinar os recursos envolvidos em ações de controle e prevenção para outras áreas cujas entregas são mais visíveis. Basta que cada leitor pense em sua própria realidade: quantos equipamentos e instalações da organização que você trabalha/frequenta estão em dia com todos os laudos e normas técnicas? Dá um frio na espinha só de pensar.

Perpassa essas razões, finalmente, a lamentável constatação de que as consequências das tragédias atingem em distintos graus de intensidade e concentração os diferentes grupos sociais: quem morre, quem vai preso, quem paga, quem lucra, quem sai impune.

Não há, portanto, nada trivial na atividade de evitar tragédias, mesmo as anunciadas. O fato é que enquanto sociedade estamos cansados de viver em tão miserável flerte com o perigo. Mas o atual estágio das coisas parece sinalizar que ainda estamos distantes de poder responder às tragédias com a simplicidade do óbvio: sabemos, logo nos preparamos. Há um longo caminho pela frente e apesar dos recentes acontecimentos, não vejo elementos para assegurar que rumamos firmes na direção da prevenção e do controle de riscos. Ao menos por aqui, nas esquinas de Minas, ainda entoa irrepreensível os versos de Beto Guedes: “a lição sabemos de cor. Só nos resta aprender”.

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