As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Servidores Públicos em Teletrabalho em Tempos de Pandemia

Glória Maria Almeida da Silva é bacharel em políticas públicas pela UFABC e pós-graduanda no Master em Liderança e Gestão Pública pelo CLP - Liderança Pública. Atualmente Glória é Diretora de Letramento Digital na gestão da política pública dos Telecentros na cidade de São Paulo.

27 de julho de 2020 | 11h38

Sabe-se que o acesso às tecnologias no Brasil ainda há muito a avançar, como divulgado pelo CETIC.BR através da pesquisa TIC Domicílios 2019 há 28% da população brasileira sem acesso à internet, 59% de pessoas sem acesso à computadores de mesa, 34% sem acesso à notebook e 93% com acesso à celulares, porém ainda com baixo letramento digital. Essas limitações refletem-se no cotidiano dos servidores públicos que tiveram a possibilidade de trabalhar à distância, o chamado teletrabalho, neste período de pandemia e isolamento social.

Os grandes desafios do atual teletrabalho de servidores públicos estão ligados aos conceitos básicos dos níveis de inclusão digital: motivação, acesso, habilidade uso e ambiente favorável. A motivação é quando uma pessoa tem incentivo externo ou interno e sente vontade ou necessidade de utilizar tecnologias. O acesso é a possibilidade de possuir a tecnologia, como computador, celular, televisão, entre outras tecnologias da informação e comunicação, e mais atualmente ter a possibilidade de acessar internet em qualquer tipo de infraestrutura. A habilidade acontece quando uma pessoa tem familiaridade no uso de tecnologias em diversos níveis de conhecimento e as utiliza para auxiliar em atividades cotidianas. Alguns autores mencionam ainda o ambiente favorável, quando um contexto maior que o indivíduo proporciona inclusão digital.

Observando essas definições, é possível afirmar que o Brasil possui como grandes desafios o acesso à conexão de internet de qualidade e a equipamentos tecnológicos necessários para desenvolver um bom trabalho. Até a segunda quinzena de março de 2020, início do acentuamento do número de infectados por Covid-19 no Brasil, muitos entes federados não cogitavam minimamente em modernizar a comunicação interna entre servidores públicos, através de plataformas online para troca rápida de mensagens e para execução de reunião à distância, ou mesmo prover computadores, ou notebooks para aqueles servidores que não possuem esses equipamentos em casa.

Além da questão ao acesso, outro desafio foi o desconhecimento com relação às novas plataformas de comunicação, como gravar vídeos aulas para alunos, editar e publicar tais vídeos, ou seja, o processo de aprendizagem e incorporação da nova maneira de trabalhar no cotidiano em isolamento social. Nesses dois aspectos, acesso e habilidade, o setor público foi obrigado a avançar tecnologicamente para tornar realidade o teletrabalho, tanto dentro dos gabinetes, das áreas meio, até mesmo professores e professoras precisaram adaptar-se para lecionar.

A adaptação à nova forma de trabalhar em tempo praticamente recorde, assentou também as descompassos na rotina de trabalho, como alto estresse por ter que lidar com ferramentas antes não usadas, falta de ambiente adequado para trabalhar, dificuldade de estabelecer limites entre os horários profissionais e pessoais, equipamento tecnológicos adequados e internet de qualidade e estável para manter a produtividade. Por outro lado, proporcionou economia de tempo no deslocamento de casa para trabalho, seja em transporte público, ou transporte individual, aproximou as famílias aumentando criação de memórias afetivas, abriu oportunidade para desenvolver novos hobbies.

Portanto, ainda há muito a progredir tecnologicamente no setor público para aumentar a qualidade de vida dos servidores públicos, porém na atual realidade nota-se que existe um problema estrutural de política pública de infraestrutura, pois as equipamentos tecnológicos ainda são caríssimos e em contextos de pandemia os preços no mínimo duplicaram, além das redes de fibra ótica ainda abarcarem regiões remotas e/ou de alta vulnerabilidade social.

Assim, alguns caminhos apontados para solução são: a maior coordenação interfederativa, cooperação público e privado e redes de apoio entre servidores públicos. A coordenação interfederativa é o cerne para que as lacunas das políticas públicas de infraestrutura de rede sejam fechadas, isto é, a atuação do governo federal em regulamentar a expansão de redes de fibra ótica e até mesmo a expansão da rede 5G, é crucial para que o acesso a tal infraestrutura se torne realidade, além de atuar na redução dos custos de concessionárias de à internet, telefone e na regulação dos tributos sobre as tecnologias da informação e comunicação. Esse posicionamento do governo federal refletirá diretamente na atuação dos Estados na regulação das concessionárias.

A articulação e aproximação entre setor público e empresas podem auxiliar na demanda de por mais computadores, notebooks, mobiliários adequados para os servidores conseguirem montar uma estrutura minimamente adequada em suas casas, esse tipo de ação pode amparar principalmente pequenos município. O último caminho possível é a criação de rede de apoio entre servidores, por meio de troca de experiência, auxílio no desenvolvimento de habilidades com tecnologia da informação e comunicação, e espaços para discutir sobre saúde mental, a rede de apoio pode facilitar a aprendizagem do desconhecido e acolher dores profissionais comuns entre os colegas de trabalho.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.