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Será mesmo verdade que “política é que nem futebol e religião: não se discute”?

Humberto Dantas

07 de agosto de 2019 | 11h24

Autores do texto:

Camila Penido, Coordenadora de Armazenamento e Segurança dos Dados Técnicos e Maurício Correia, Chefe de Gabinete da Fundação CASA-SP. Ambos são Líderes MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública – MLG.

Neste conteúdo, Camila e Maurício abordam a importância sobre o diálogo político na sociedade, principalmente no âmbito da gestão pública. Confira:

 

O que tem acontecido conosco? Faz algum tempo que não conseguimos mais manter um diálogo quando o assunto é política. Não raro, em grupos de convivência, como o WhatsApp, convencionamos como parte de um código de ética o princípio “não tratarás sobre política”, como se esse tema rompesse com o respeito das relações sociais. Basta entrar em qualquer grupo de rede social para ser recebido com um conjunto de regras de conduta, em que a política se tornou um tabu.

Não que esse assunto tenha sido banido. A política até surge, mas de maneira rasa, sem o propósito de diálogo. Na maior parte das vezes, fica restrita a discursos menos tolerantes por meio do compartilhamento de conteúdo em redes sociais que afirmam valores de grupos homogêneos ou remetem à tão afamada roubalheira. Parecemos estar presos a uma abordagem desse tema a partir do viés de corrupção – Brasília – Bolsonaro – PT, isto é, de um jeito bastante trivial: discorrendo sobre política meramente do ponto de vista institucional.

Mas a política representa muito mais! Ela tange o processo de construção social e ultrapassa posições institucionais fundamentada em um “concordo” ou “discordo” e em rótulos partidários. Ela abarca o relacionamento, a articulação e a construção de consensos e visões de mundo. Naturalmente, é a partir dessas relações que surgem discussões e conceitos mais esmerados: há divergências sobre quais seriam as prioridades, os papeis do Estado e do mercado, dentre tantos outros assuntos que afetam a sociedade.

Nesse sentido, a política precisa estar presente em nossos grupos e em nosso cotidiano. A partir dela, se constroem anseios, se declaram problemas, se pressiona o Estado, se elaboram propostas de solução e se avalia a qualidade de vida. Mas, no contraponto, estamos incorporando em nossas relações institucionais o código de ética tão presente em grupos sociais: é possível observar certa vigilância ao evitar conversas com teor político em nossas redes profissionais, proibindo discussões que remetam de alguma forma à política e afastando seus membros desse tema tão “polêmico”.

A questão é que a sociedade brasileira enfrenta inúmeros problemas sociais complexos, em que estão envolvidos os mais diversos atores (sociais, administrativos, políticos, econômicos), múltiplos processos (ambientais, tecnológicos, de produção) e inúmeras escalas espaciais e temporais (recortes geográficos, históricos e de desenvolvimento econômico). E, para resolver esses problemas complexos, torna-se cada vez mais imprescindível dialogar sobre política e, a partir dessa construção social, pensar em novas maneiras de atuação do governo, voltadas principalmente para a colaboração e atuação em rede, visto que governar constitui um processo de articulação de vários atores em âmbitos não só social e administrativo, como também político.

Sendo assim, se entendermos que a política institucional – aquelas partidárias também – existe para auxiliar na resolução de problemas complexos em nossa sociedade, como podemos evitar falar sobre política?

E, se estamos falando de política institucional, falamos também de governo, de administração pública e de servidor público. E, em geral, é possível identificar que, ao longo das últimas décadas passou-se a se dar menos ênfase a aspectos burocráticos e ao controle de resultados das ações públicas e estatais, valorizando-se mais a cooperação entre as partes interessadas no processo das políticas públicas e a democracia cidadã. Diante disso, a qualidade de um serviço público passa a se qualificar para além dos resultados obtidos, sendo vista a partir da noção mais complexa e multifacetada, correspondendo a um processo participativo com múltiplos interessados (stakeholders).

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Em administração pública, por exemplo, a literatura apresenta estudos de caso acerca da prática da coprodução em alguns países em desenvolvimento, o que comprova que os níveis de colaboração de construção de serviços públicos estão diretamente ligados à cultura, aos valores e à maturidade democrática de cada país. Mas, no caso do Brasil, como fomentar a coprodução de uma sociedade que ainda é tão imatura democraticamente, possui uma cultura política tão frágil e ainda vive um movimento antipolítica?

Aqui encontra-se uma grande responsabilidade dos gestores públicos: não evitar discussões políticas, mas sim pensar em formas de se fomentar o diálogo público e a cidadania democrática com vistas a se restabelecer um senso de legitimidade a administração pública e melhorar a qualidade dos serviços sociais prestados.

O trabalho do gestor público já é caracterizado por grandes desafios e complexidades, e em uma conjuntura em que são frequentes os mais variados conflitos de valor, ignorar a política significa construir muros na relação com a sociedade e se distanciar dos reais problemas e anseios da população. Assim, torna-se imprescindível ressignificar o papel desse agente no processo de governança, como um ator que não simplesmente atende a demandas da sociedade, mas, sobretudo, concentra seus esforços em estabelecer relações de confiança com os cidadãos, auxiliando-os no processo de participação democrática (DENHARDT e DENHARDT, 2000)¹.

A forma como gestores públicos lidam com a política é bastante importante, pois impacta diretamente na forma como as políticas públicas serão engendradas e implementadas. Ela pode ser analisada de forma isolada, a partir do viés meramente institucional, mas o grande desafio aqui, no contexto da Administração Pública brasileira, é enxergá-la de maneira sistêmica e ampla.

Se queremos melhorar nossas relações, buscar as melhores soluções para os problemas sociais e melhorar a nossa nação é preciso conversar sobre política, principalmente no âmbito da gestão pública.

E então, bora conversar sobre política?

¹ DENHARDT, R.; DENHARDT, J. The New Public Service: Serving Rather than Steering. Public Administration Review, v. 60, n. 6, 2000.

 

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