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Saúde Mental: o freio de mão da retomada do aprendizado dos estudantes

Marcela Trópia é graduada em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e pós-graduada em Liderança e Gestão Pública pelo CLP – Centro de Liderança Pública. Em 2020, foi eleita vereadora pelo partido NOVO em Belo Horizonte com 10.741 votos, sendo a sexta mais votada da cidade.

11 de maio de 2022 | 11h08

O retrocesso na aprendizagem dos alunos já era esperado, após meses de fechamento das escolas no Brasil. Mas há uma outra face do impacto da crise da Covid-19 nos jovens que precisa ser observada pelas escolas: a da saúde mental. Um estudo recente na rede estadual de ensino de São Paulo revelou que 7 em cada 10 alunos relataram sintomas de ansiedade e depressão em níveis altos durante a crise da covid-19. O dado traz luz à urgência em tratarmos deste problema, que prejudica a retomada de aprendizagem dos alunos no país.

O estudo realizado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna constatou a triste realidade de diversas famílias brasileiras, que hoje acompanham seus filhos em casos de depressão, ansiedade, estresse, trauma, medo, irritabilidade e outros. A separação dos amigos, o estresse do ensino remoto e o próprio medo diante da contaminação com a Covid-19 foram fatores que pressionaram a saúde mental desses jovens. 

O lockdown da pandemia significou para os alunos uma mudança completa de rotina. Agora, o retorno às aulas presenciais é um novo processo de adaptação para crianças e adolescentes. Não sem razão, temos visto emergir esse novo desafio educacional representado por episódios que tomam as manchetes dos jornais, como foi a crise de ansiedade coletiva em uma escola em Recife.

Já temos as metodologias e as ferramentas necessárias para enfrentar o atraso na alfabetização e no aprendizado que tantos alunos sofreram com o fechamento das escolas. Afinal, esses são problemas que lidávamos muito antes da pandemia. Mas a pergunta que fica é: estamos atentos e preparados o suficiente para enfrentar a crise de saúde mental que vemos nas escolas? 

Qual é o real impacto da saúde mental no aprendizado?

Na definição da Organização Mundial da Saúde, saúde mental é um estado de bem estar em que o indivíduo, entre outras coisas, é capaz de ser produtivo e de lidar com os estresses comuns da vida. No caso das crianças, esse conceito também leva em conta um senso de identidade positivo, a habilidade de administrar pensamentos e emoções, a capacidade de construir relacionamentos e a habilidade de aprender e adquirir educação.

A saúde mental é central no processo de aprendizado dos jovens. O estudo do Instituto Ayrton Senna identificou quedas relevantes em dois grupos de competências afetadas pela falta de saúde mental e que impactam no aprendizado: a autogestão, que se relaciona com foco, determinação, organização, persistência e responsabilidade; e a amabilidade, que contempla empatia, respeito e confiança.

Os números sugerem que os impactos na saúde mental desses jovens podem frear a recuperação do aprendizado perdido na pandemia. De acordo com o estudo, quando desenvolvidas de maneira intencional nas escolas, a autogestão pode significar 3,5 meses letivos a mais de aprendizado em Matemática, enquanto a amabilidade pode refletir em 5,8 meses a mais em Língua Portuguesa.

Além do impacto no aprendizado, a UNICEF também estima que a perda de capital humano para a população de 0 a 19 anos, por conta de questões relacionadas à saúde mental, representa um custo de 340 bilhões de dólares em todo o mundo.

Como promover a saúde mental nas escolas?

Há uma série de medidas que podem contribuir para que crianças e adolescentes fortaleçam a sua saúde mental e tenham pleno acesso à educação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) coloca as escolas como locais importantes para a promoção de educação, saúde e bem-estar e a UNICEF sugere diferentes iniciativas para tratar do tema nas escolas. 

Para começar, é fundamental tornar as escolas um espaço seguro para a saúde mental dos jovens e abordar o estigma em torno do assunto. É notável que, no Brasil, transtornos relacionados com a saúde mental ainda são vistos com discriminação e os seus efeitos são frequentemente minimizados. Enquanto não tivermos clareza dos reais impactos de quadros como depressão e ansiedade na vida desses alunos, o cuidado com a saúde mental ainda permanecerá despriorizado.

O Vozes da Educação, consultoria de inteligência educacional, recomenda que os educadores sejam treinados para reconhecerem os sintomas de possíveis transtornos de saúde mental de maneira preliminar, para que os alunos possam receber o devido atendimento. É claro que a escola não deve se tornar uma clínica, mas é importante que a comunidade escolar saiba identificar jovens que precisam de ajuda e os destinem para o diagnóstico e tratamento adequados.

Outras sugestões da UNICEF envolvem trabalhar com o tema da saúde mental de maneira propositiva o mais cedo possível com os alunos, aprimorar políticas públicas que envolvam a família, promover atividades físicas e nutricionais com as crianças, além de investir em cuidados nessa área desde a saúde primária. No entanto, algo que precede essas propostas, e que é fundamental para a elaboração de medidas eficazes, é o investimento em pesquisa e diagnóstico. 

Precisamos saber quão fundo vai o iceberg do enfraquecimento da saúde mental dos jovens brasileiros no pós-pandemia, onde estão os que mais sofrem e quais são os principais problemas enfrentados por eles. Só assim seremos capazes de construir políticas públicas que realmente tratem os problemas em sua raiz e tornem as escolas brasileiras o melhor ambiente possível para que nossos jovens recebam uma educação transformadora.

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