Porque resolvi doar (e como acho que pode fazer a diferença)

Humberto Dantas

29 Junho 2018 | 05h33

Texto de autoria de Isabel Ópice, economista, mestranda em Harvard e líder MLG.

 

No último post neste blog falei sobre a minha primeira experiência com o Altruísmo Eficaz. Esse contato inicial me instigou a conhecer mais sobre o movimento e a fazer a minha primeira doação pela doebem.  Depois de assistir ao Ted Talk do Peter Singer, resolvi entender melhor seu argumento em prol da filantropia lendo o livro “The Life you Can Save”. Se no começo da leitura fui tomada por um sentimento de culpa por todos pequenos luxos e privilégios que desfruto na minha vida – como consumir bens que não necessariamente preciso – ao final entendi que o livro é menos uma lição de moral e mais um convite à reflexão profunda sobre escolhas e filantropia.

No início do livro, Singer aprofunda o argumento moral de que devemos doar com base em três premissas. Primeiro, a ideia natural de que sofrimento e mortes que têm como causa a pobreza são ruins. Segundo, argumenta que se podemos prevenir algo ruim de acontecer, sem sacrificar nada igualmente importante, é errado não o fazer. Finalmente, doar para organizações eficazes previne sofrimentos e mortes desnecessárias. Juntando os três pontos, segue a conclusão de que não doar é errado. Foi aí que senti minha primeira pontada de culpa. Porque é difícil argumentar que fazer pequenas economias no meu dia a dia e doar essa quantia ao final do mês seria um sacrifício.

Ainda que o argumento moral seja convincente, muitas vezes não é compatível com o que sentimos e o autor fornece diversas razões para tal. Um fator importante são os nossos vieses cognitivos, como a falta de empatia por causas não-personificadas (ou seja, quando somos expostos apenas a estatísticas), o nosso senso de justiça, isto é, a falta de vontade de doar ao percebermos que os demais não o fazem e a noção de responsabilidade difusa. Reconhecendo tais vieses, o livro termina com uma abordagem mais pragmática e uma proposta que poderia ser implementada por muitos: doar entre 5% e 10% da renda.

Me convenceu.  E não só pelo pragmatismo. Lendo o livro percebi que fazer parte deste movimento não é uma condição binária, e sim um processo contínuo de aprendizagem sobre como fazer o mundo um lugar melhor. Como citei no post anterior, um dos grandes temas apoiado pelo Altruísmo Eficaz é o sofrimento animal e, portanto, condena-se o consumo de carne e derivados. Me conheço e sei que não vou virar vegetariana do dia para a noite, ainda que veja bastante sentido no apoio a causa. Isso não me impede de participar de outras formas. E quem sabe, estudando mais e entendendo melhor as consequências da minha alimentação, diminua aos poucos o consumo de carne e um dia, me converta.

Estou comprometida a doar 10% da minha renda. Mas imediatamente vem uma pergunta óbvia: para quem doar? Que organizações usam da melhor forma as nossas doações para, de fato, reduzir o sofrimento alheio, como sugere a terceira premissa de Peter Singer? É difícil fazer essa avaliação sem conhecimento específico das intervenções e acesso a dados que normalmente não estão disponíveis ou dão trabalho para obter.  A doebem busca justamente responder essa pergunta, avaliando o impacto de organizações sem fins lucrativos em diferentes áreas de atuação com base em uma análise criteriosa dos resultados alcançados e dos custos incorridos. Atualmente, eles recomendam três organizações no Brasil que são eficazes em transformar doações em impacto: Saúde Criança, Renovatio e a Caviver.

O conselho final de Singer para aqueles que se identificaram com a mensagem é divulgá-la. Assim, estendo o convite para os que podem, de alguma forma, ser parte desse esforço coletivo. Caso essa mensagem também faça sentido para você, entre no site, busque saber mais sobre Altruísmo Eficaz e se sentir confortável e puder, faça uma doação.

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