Políticas públicas “Made in China”

Humberto Dantas

13 Setembro 2018 | 16h17

Texto de autoria de: Tadeu Luciano Seco Saravalli – advogado, Especialista em Gestão Pública pela UFScar, Líder MLG, Mestrando em Ciências Sociais (Área de Desenvolvimento e Relações Internacionais) pela UNESP – Câmpus de Marília, Membro da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas.

Marcos Cordeiro Pires – historiador, Doutor em História Econômica pela USP, Professor no Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da UNESP – Câmpus de Marília, Membro do Instituto Confúcio da UNESP e Membro da Associação Brasileira de Estudos Chineses.

 

Brasil e China possuem algumas semelhanças, mas também muitas diferenças. Se de um lado, ambos, são continentais, estão entre as maiores economias do mundo e possuem grandes populações; de outro lado, existe uma disparidade no que tange às taxas de crescimento, ao desenvolvimento tecnológico e à criação de empresas de classe global. Nesses quesitos, a China se distanciou muito do Brasil desde a década de 1980.

No começo daquela década, a renda per capita do Brasil era dez vezes superior à da China. Hoje, as rendas são equivalentes e os salários industriais chineses são superiores aos nossos. Em quase 40 anos o país asiático reformou o seu sistema econômico, abriu sua economia ao mundo, incorporou tecnologia aos seus produtos e fez um grande esforço para a formação de quadros técnicos e mão-de-obra qualificada. Entre 1980 e 2017, a China cresceu em média 9% ao ano. Neste mesmo período nosso país entrou em forte estagnação e viu sua indústria desnacionalizar e encolher, tornando-se novamente um grande exportador de commodities de baixo valor agregado.

Em grande parte, o sucesso da China é explicado por sua definição de políticas públicas de Estado, que mesclam a capacidade de planejamento e a estabilidade de continuidade proporcionada pelo Governo Chinês e pela introdução de mecanismo de mercado, que permitiu a criação de um grande setor não-público, composto de empresas privadas, empresas coletivas e empresas individuais. Além disso, o estabelecimento de parcerias com empresas multinacionais proporcionou a absorção de tecnologias e capacidade de gerenciamento que impulsiona as empresas locais.

Ao longo desses quase 40 anos, a China subiu fortemente nas cadeias de valor e está deixando de ser um país “imitador” para se tornar uma economia “inovadora”. Em destaque, o planejamento estratégico da China subdividido em vários Planos para se tornar um país desenvolvido, como é a meta do governo chinês para 2049.

Em primeiro lugar, vale a pena conhecer o “Plano Made in China 2025”, que tem o objetivo de a tornar um país de ponta em novas tecnologias industriais. Na estruturação do projeto foram identificadas nove ações prioritárias: 1) melhorar a inovação industrial; 2) integrar tecnologia e indústria; 3) fortalecer a base industrial; 4) promover marcas chinesas; 5) reforçar a produção verde; 6) promover a reestruturação do setor manufatureiro; 7) incentivar as empresas de serviços relacionados à produção industrial; 8) a internacionalização da manufatura e, 9) promover avanços em dez setores-chave.

Por outro lado, há o projeto “Internet Plus”, que busca desenvolver a economia digital, impulsionar a indústria e aprimorar os serviços públicos e privados. Trata-se de um plano de cinco anos para integrar computação em nuvem, big data e a Internet das Coisas. Dentre seus objetivos, destaca-se: 1) destinar mais fundos para pesquisa e desenvolvimento, atingindo 2,5% do PIB até 2020; 2) diminuir a dependência de inovação tecnológica não doméstica; 3) disponibilizar conexões de internet de 100 MB/s para pessoas em grandes cidades; 4) estender a conectividade de banda larga para atingir 98% da população e, 5) fornecer mais recursos para promover o desenvolvimento de negócios e inovação.

Um dos resultados mais esperados de ambas as iniciativas diz respeito às smart cities (Relatório sobre Cidades Super Inteligentes, publicado em março deste ano pela empresa britânica Deloitte revela que existem mais de 1.000 cidades inteligentes em construção a nível mundial, onde a China é o país com maior representação) para avançar no aprimoramento da gestão urbana e qualidade de vida da população.

E as iniciativas não se restringem a essas. No último mês de agosto, o CEPC Briefing, um periódico do Conselho Empresarial Brasil–China publicou matéria sobre a apresentação “A China e a revolução em inteligência artificial”, realizada por Adriana Abdenur. Consta do periódico que começa a ser implementado a partir deste ano até 2020 o “Plano de Desenvolvimento de Inteligência Artificial de Nova Geração”, no qual o governo chinês pretende construir uma indústria de cerca de um trilhão de dólares, alinhado com o “Plano Made in China 2025”. Segundo o periódico, o referido plano em inteligência artificial pode ser interpretado como elemento de uma nova visão para a economia chinesa, integrando parte da tentativa de reestruturação macro, que inclui dentre outros objetivos, o aumento na expansão do setor de serviços de alto valor agregado, investimentos em inovação tecnológica, estímulo ao consumo e reequilíbrio chinês.

Para ampliar essa área econômica, o Plano de Ação cria um fundo específico, que propicia um ecossistema de instituições financeiras que investem pesadamente em inteligência artificial, o que contribui para um novo ecossistema de instituições de pesquisa. A matéria traz que a China envia muito de seus pesquisadores para programas de doutorado fora do país, mas ao mesmo tempo oferece incentivos para que esses pesquisadores voltem com boas condições de trabalho nas empresas ou universidades, tal qual a Tsinghua University, que oferece salários comparáveis aos do setor privado, grandes financiamentos em pesquisa e também parcerias público-privadas, onde a consequência disso é a cultura acelerada de registro de patentes na China. Em sentido oposto, os pesquisadores brasileiros, por falta de investimento, estão se mudando para os Estados Unidos e Portugal, o que se torna preocupante num cenário de novas tecnologias em desenvolvimento.

De fato, a China já é um hub de inovação, onde o Brasil deve se adequar/planejar a lidar com a simetria em relação ao país asiático para uma cooperação capaz de nutrir o ecossistema nacional gerando um novo marco de oportunidades locais. Diante disso, poderíamos perguntar quais os dilemas de um país, num sistema político democrático, com certa instabilidade e descontinuidade de políticas públicas como o Brasil pode ter um desempenho parecido. A resposta não é simples, pois, há uma enorme diferença entre nossas sociedades, os sistemas educacionais etc. É preciso de planejamento a longo prazo e alterar a ideia de que o “Made in China” é apenas uma imitação barata. A China já está exportando tecnologia de inteligência artificial, por exemplo. O Brasil, ainda é apenas um grande exportador de commodities.