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Pesquisa revela alto índice de polarização política entre os brasileiros

Cézar Rogelio Vasquez, engenheiro de produção pela UFRJ, com mestrado em engenharia de produção pela COPPE/UFRJ, MBA em finanças pelo IBMEC/RJ e pós-graduado pelo Master em Liderança e Gestão Pública - MLG. É ex-Diretor Superintendente do Sebrae/RJ e hoje atua como consultor em Empreendedorismo e Políticas de Desenvolvimento.

20 de junho de 2019 | 08h00

Recente pesquisa do Instituto Ipsos revelou um alto índice de polarização política entre os brasileiros. Não escutar argumentos contrários. Preferir dialogar apenas com quem tem a mesma opinião. Acreditar que posições diferentes podem representar ameaças para o país. São posturas cada vez mais disseminadas, independentes da visão de mundo de cada um. Em determinados ambientes o diálogo parece impossível, como se os interlocutores estivessem falando de mundos absolutamente distintos.

Mas se a polarização política é preocupante, mais grave é o que ela tende a potencializar. O desapego aos fatos. Um fenômeno bastante democrático, que costuma atingir pessoas de diferentes estratos sociais e que tem pouca relação com educação ou inteligência. No excelente livro “Factfulness” (Plenitude dos fatos; fiabilidade), de Hans Rosling, Ola Rosling e Anna Rosling Rönnlund, são apresentados resultados desconcertantes de respostas a um conjunto de 13 perguntas sobre aspectos gerais do mundo de hoje. As plateias pesquisadas eram compostas por pessoas muito bem formadas de diferentes países, a maior parte deles altamente desenvolvidos. Na média, todos ficam abaixo da taxa de acertos que chipanzés teriam se 1/3 das opções fossem associadas a bananas.

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A questão levantada pelos autores serve muito bem para pensar sobre certas declarações que têm rondado a política nacional. Numa passagem do livro: “Então, como os gestores e formuladores de políticas e os políticos poderão resolver problemas globais se estão operando com fatos errados? Como os executivos poderão tomar decisões sensatas para suas organizações se suas visões de mundo estiverem de cabeça para baixo? E como cada pessoa poderá saber sobre o que se estressar e preocupar? E assim tocar a sua vida.” O livro explora 10 instintos que tendem a nos levar a posições e ações com desapego aos fatos, e propõe estratégias para nos prevenir dos equívocos.

O Brasil está vivendo uma onda de negar “tudo que está aí”. E não estamos falando de tresloucadas tentativas de revisão de fatos históricos. Houve golpe ou não? Fascismo é de Esquerda? Nem o problema está focado exclusivamente no Presidente ou no Governo Federal. Tem para todo mundo. É uma extensa lista de visões descoladas da realidade e de tentativas de buscar bodes expiatórios ao invés de encarar os fatos. O caso do Rio de Janeiro é emblemático. O Prefeito, que não pode ser responsabilizado por tudo, há três anos tenta responsabilizar o Prefeito anterior por sua própria incapacidade administrativa. A corrupção, muito danosa ao Estado, não foi a principal responsável pela crise fiscal. Nem os incentivos tributários. Basta olhar os números. O Estado do Rio de Janeiro foi vítima de uma combinação perversa de problemas estruturais nos gastos com pessoal (aposentados e pensionistas), da maior recessão econômica do país, de uma política equivocada para o setor de Óleo e Gás pelo governo federal anterior, e da forte queda dos preços internacionais do Petróleo em 2018. Uma visão deformada do mundo faz a gente perder tempo e oportunidades.

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