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Pacientes pós-Covid pedem socorro

Flávia Lancha é formada em Letras, com pós-graduação em recursos humanos pela Universidade de Franca e especialização em Administração Rural pela FGV e é líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública - MLG. Ela já foi diretora comercial e financeira da empresa Labareda Agropecuária por 28 anos. Ela também é fundadora da ICOL Instituto de Capacitação e Orientação Livre que é do terceiro setor.

15 de julho de 2021 | 14h28

Há aproximadamente 1 ano e meio o tsunami representado pela pandemia da Covid-19 desembarcava no Brasil.
Naquele momento, a existência de um Sistema Único de Saúde (SUS) em nosso país, internacionalmente reconhecido pelo seu sucesso seja em campanhas de vacinação, em tratamentos de alto risco, em programas como o da Farmácia Popular ou de acesso gratuito a medicamentos de alto custo, levava as lideranças mundiais a apostarem que os entes da federação conseguiriam orquestrar um plano bem afinado para enfrentar o novo coronavírus.

Não foi o que se viu. O desafio ratificou o quanto estamos descoordenados, divididos, sem foco e sem um planejamento proativo, focado na defesa da vida, da saúde e do bem-estar do povo brasileiro. Diante do imponderável, o debate político ganhou fôlego e se sobrepôs ao Capítulo I da Constituição Brasileira que trata dos Direitos Individuais e Coletivos.

Claramente, aqueles que habitam o solo brasileiro têm assegurado uma legislação que versa sobre seus direitos e deveres. Dessa forma não se trata de os dirigentes optarem entre um ou outro direito, mas de encontrarem caminhos para assegurarem o atendimento e cumprimento de todos esses direitos e cobrarem o cumprimento dos
deveres. Contudo, o que vimos quando a temperatura do debate subiu, foi a insistência de uns ou de outros tirarem proveito da polarização, com os primeiros defendendo a vida e os segundos atuando em prol da economia.

Tal miopia nos afastou da possibilidade de percebermos o óbvio: não havia escolha alguma a ser feita, os direitos e deveres já estão postos na nossa Constituição. São inquestionáveis. A perspectiva que se colocava já naquele março de 2020 não era qual direito priorizar, mas como garantir o acesso a todos os direitos em meio à convulsão mundial e nacional.

Qualquer solução a que se pretendesse chegar passaria, impreterivelmente, pelo planejamento global e local, pela organização, pela eficiência do poder público e instituições coadjuvantes. Fortalecidos por normativas sólidas, esses agentes tratariam da conscientização da população e da mitigação dos estragos que desde o início eram esperados.

A incapacidade que demonstramos de enfrentar esta desastrosa e dolorosa pandemia, revelou as vísceras da nossa sociedade e do nosso sistema de poder, com consequências que extrapolam os limites desse artigo. Sobram estatísticas na mesma proporção em que falta o espírito humanitário. Esse descompasso resultou, até o presente momento, em 19,2 milhões de infectados e 537 mil mortos no Brasil. Nosso país responde por 10,21% do índice de contaminação global e 7,56% do total dos mortos.

Entretanto, agora que vacinas foram descobertas e que a vacinação avança dia a dia , é chegada a hora das autoridades demonstrarem que entenderam o seu papel de lideranças e buscarem se antecipar a um novo cenário que se apresenta.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já abriu frentes de debates clínicos em torno do que ela denomina long Covid e a classe médica e pesquisadores brasileiros denominam Tipos de Condições pós-Covid. Trata-se da constatação de que um percentual significativo daqueles que foram infectados estão apresentando sequelas. Os estudos atuais apontam que cerca de 10% sofrem com a persistência de ceertos sintomas, mas ainda não é possível definir a porcentagem exata, pois os estudos estão em andamento.

Esses casos são um motivo extra de preocupação, principalmente para a população brasileira, tendo em vista o alto número de infectados e a presença contínua de novas variantes. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), algumas pessoas estão experimentando uma série de sintomas novos ou contínuos que podem durar semanas ou meses após serem infectadas pela primeira vez com o vírus que causa Covid-19.

Ao contrário de alguns dos outros tipos de condições pós-Covid que tendem a ocorrer apenas em pessoas que tiveram doença grave, esses sintomas podem acontecer a qualquer pessoa que teve Covid-19, mesmo se a doença foi leve ou se eles não tiveram a doença inicial com sintomas.

As pessoas geralmente relatam ter diferentes combinações dos seguintes sintomas: dificuldade em respirar ou falta de ar, cansaço ou fadiga, sintomas que pioram após atividades físicas ou mentais, dificuldade de pensamento ou concentração (às vezes referida como “névoa do cérebro”), tosse, dor no peito ou estômago, dor de cabeça, coração batendo ou batendo acelerado, dor nas articulações ou músculos, sensação de alfinetes e agulhas, diarreia, problemas de sono, febre, tontura ao ficar de pé, irritação na pele, mudança no cheiro ou sabor, mudança de humor, ou mudanças nos ciclos do período.

Todavia, ao lado desses sintomas, há casos clínicos em que órgãos vitais ou mesmo sistemas são comprometidos com consequências graves e até mesmo fatais para outros pacientes.

Com todas essas informações, ainda que parciais e passíveis de maiores estudos, entendo que as autoridades e a população brasileira não podem, mais uma vez, serem reféns da falta de planejamento e informação. Os entes da Federação, através de todos os meios de que dispõem, precisam se antecipar proteger tanto a nossa população como o nosso país.

Para além das consequências pessoais, a ausência de políticas públicas para que se disponha de dados sobre o impacto das sequelas, ou Tipos de Condições pós-Covid, podem impactar ainda mais o SUS, a Previdência Social, os cofres públicos e a economia de forma geral. É preciso mobilizar, desde já, todos os setores que, de alguma forma, possam ser atingidos pela nova realidade.

Trata-se, portanto, mais uma vez, da necessidade de o poder público conhecer, planejar e atuar com eficiência, transparência e credibilidade.

Quanto à população, há ações ao seu alcance desde já. Como por exemplo, inteirar-se e assinar a petição disponível neste link, mas também continuar seguindo os protocolos sanitários e protegendo-se e aos demais da Covid-19.

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