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Os impactos da pandemia no setor do turismo

Humberto Dantas

29 de abril de 2020 | 10h00

Autor do texto:

Renata de Araújo Rodrigues Wanderley é formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pós-graduada em Gestão Municipal pela Universidade de Pernambuco (UPE), em Gestão de Projetos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Instituto Brasileiro de Engenharia de Custos – IBEC, realizado através do Instituto de Qualificação – IQ; e é líder Master em Liderança e Gestão Pública. Atualmente exerce o cargo de Diretora Administrativa Financeira da Empresa de Turismo de Pernambuco Governador Eduardo Campos – EMPETUR S/A.Os

No texto, a líder fala sobre os impactos na indústria do turismo causados principalmente pelo isolamento social, única estratégia encontrada para frear o avanço do novo coronavírus. Segundo ela, é previsto um retrocesso entre 20 a 30% do turismo este ano. Ainda assim, a área já prevê retomada e conta com uma capacidade de adaptabilidade.

Entenda:

O setor ainda comemorava um dos melhores anos na história do turismo desde 1970, atingindo um crescimento de 4% em relação ao ano anterior, segundo informações do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTCC), quando foi surpreendido pela decretação do “Estado de Calamidade em Saúde Pública” no mundo. Em razão da pandemia Covid-19 provocada pelo novo Coronavírus, a indústria que impulsiona a economia por meio do constante fluxo de pessoas pelo mundo, gerando emprego e renda, está agora inerte.

O estudo “Impacto Econômico da covid-19 e Propostas para o Turismo Brasileiro”, elaborado pela FGV Projetos, indica que o Produto Interno Bruto (PIB) do setor de turismo, em 2019 chega a R$ 270,8 bilhões, além de empregar formalmente cerca de 6,9 milhões de pessoas. O turismo gera oportunidades de negócio tanto para grandes conglomerados (companhias aéreas, redes hoteleiras, empresas de cruzeiros) quanto para pequenos empreendimentos, sejam agências de viagem locais, pousadas, restaurantes ou guias turísticos que atuam em suas comunidades. As atividades do setor incluem hospedagem, alimentação, transporte, agências e organizadores de viagens, aluguel de bens móveis, além de atividades de lazer, culturais e esportivas. Cerca de 210 setores da economia têm alguma relação com o turismo. Para todos eles, a receita depende do interesse de visitantes.

Com a disseminação de contágio do novo coronavírus neste começo de 2020, os impactos na indústria do turismo já se apresentam severos. O isolamento social, apesar de ser a única estratégia encontrada até agora para frear o avanço da doença, tem um impacto direto na atividade econômica, principalmente para aqueles setores e serviços que não são considerados essenciais. Os serviços ligados ao mercado de viagens, por exemplo, estão entre aqueles que são e serão mais afetados por essa pandemia.

A suspensão de viagens e o fechamento de fronteiras ao redor do planeta, torna a atividade turística inviável. Com as fronteiras fechadas, companhias aéreas quase pararam sua operação, armadoras de cruzeiros suspenderam todos seus itinerários até segunda ordem, parques, centros de convenções e grandes hotéis suspenderam completamente suas atividades sem data definida para voltar e diversos pequenos hotéis correm risco de fechar suas portas em definitivo se o cenário atual durar muitos meses.

De guias de turismo a grandes cadeias hoteleiras, as perdas no setor já são mesmo gigantes. Sem contar o setor de eventos que está completamente paralisado com a suspensão das atividades dos centros de convenções e teatros em todo Brasil, além da vedação para aglomerações.

Primeiro setor a sentir o impacto por conta dessa pandemia, a Organização Mundial do Turismo (OMT), prevê um retrocesso entre 20 a 30% do turismo global em 2020, na comparação com o ano passado. Ainda segundo a entidade, a projeção é de uma atividade quase inerte para o período em que durar o isolamento social e ainda sua retomada, após o fim do isolamento, será lenta, podendo levar de 5 a 7 anos para recuperar as perdas de 2020.

Diante do contexto atual da pandemia da Covid-19, o Governo Federal editou a Medida Provisória 925 de 18/3/2020, que traz medidas emergenciais para a aviação brasileira, estende prazos de pagamentos de contribuições, decorrentes da concessão federal, e dispõe sobre o reembolso dos valores pagos pelos consumidores, na tentativa de minimizar os impactos da pandemia junto ao setor.

Mas as perspectivas são positivas. O setor de turismo, sem dúvida, é um mercado importante, que vai atravessar este momento e voltará a crescer.

Estimativa do estudo da FGV, projeta em 2021, que o setor deve ficar próximo da recuperação total e arrecadar R$ 259,4 bilhões – 4,2% a menos que em 2019. Ao todo, as estimativas dão conta de que o setor deve perder R$ 116,7 bilhões em 2020 e 2021 – isto é, 21,5% a menos que no ano passado. Para a reabilitação total, o turismo deverá crescer 16,95% ao ano em 2022 e 2023, o que representaria cerca de R$ 303 bilhões e R$ 355 bilhões, respectivamente, para os rendimentos do setor.

A instituição projeta que a retomada deve se iniciar com viagens essenciais e familiares. O Brasil sempre foi um país que apresenta fortemente o turismo doméstico, aquele realizado por brasileiros dentro do próprio país, tão criticado pela indústria do turismo, mas que nesse momento pode representar uma luz para o retorno do setor de turismo mais rapidamente. Além da contribuição do governo para viabilizar medidas que assegurem a sobrevivência e a recuperação das empresas do turismo, tais como acesso a linhas especiais de crédito, auxílio governamental para pagamento da folha salarial dos colaboradores e prorrogação ou isenção de impostos e contas básicas (aluguel, luz, água, esgoto, outras) durante esse período.

Mas toda mudança demonstra que a velocidade e a capacidade de adaptabilidade das organizações ditam a sobrevivência em um mercado competitivo. E assim também precisará ocorrer com o setor de turismo.

Em época de trabalho remoto e isolamento social, as pessoas estão sendo sentindo a necessidade de modificar seus padrões comportamentais, suas formas de interagir, de trabalhar e até de se comunicar. Com isso o consumo de viagens e do turismo também deverá ser modificado. Espera-se como impacto direto da Covid-19, viagens para trechos internos, para pequenos deslocamentos, com menor impacto aos recursos naturais e com mais valor sentimental.

As paisagens no mundo sem a intervenção humana têm se modificado, se aprimorado, o que sugere que o consumo do turismo em larga escala seja revisitado para que as viagens sejam eminentemente formas de fortalecimento das relações humanas, especialmente um engajamento cada vez maior entre o visitante e o morador local. Os negócios turísticos tendem a sofrer uma modificação em sua infraestrutura no que se refere aos cuidados sanitários, uma vez que as exigências das pessoas com questões sanitárias, de saúde e segurança serão maximizadas, assim como em relação aos controles de número de visitantes e até em relação aos padrões de consumo, que devem se voltar para a sustentabilidade geral do destino, de seus recursos naturais, do respeito à cultura local, da valorização da experiência autentica, única, e assim garantir que, passada essa tempestade, o Brasil eleve a sua vocação para o turismo e possa gerar emprego e renda.

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