As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O SUS que dá certo

Fábio Ferraz é Secretário de Saúde de Santos, Mestre em Gestão de Políticas Públicas pela FGV/SP e pós-graduado em Master em Liderança e Gestão Pública (MLG) pelo CLP - Liderança Pública, com extensão na Harvard Kennedy School.

06 de julho de 2020 | 11h00

Nem parece SUS. Já ouvi esta frase de munícipes algumas dezenas de vezes nestes três anos e meio à frente da Secretaria de Saúde de Santos, quando em visitas a serviços mantidos em conjunto com instituições privadas de saúde ou entidades do terceiro setor, como ocorre, por exemplo, na gestão do Complexo Hospitalar dos Estivadores.

Ao mesmo tempo que a afirmação traz um reconhecimento da qualidade oferecida, ela faz lembrar que o Sistema Único de Saúde (SUS) no País ainda não é 100% eficiente, apesar de possuirmos ‘ilhas’ de excelência e, pelo menos no ‘papel’, o modelo brasileiro ser exemplo para o mundo.

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) trouxe pânico pelo risco de contágio de uma doença desconhecida, sem cura ou vacina. Entre os gestores da Saúde no Brasil também gerou medo e questionamentos: Vamos suportar esta demanda? O sistema de atendimento irá colapsar?

A declaração do estado de emergência em saúde pública no início de fevereiro deu o start para que nos preparássemos para o maior desafio da história da nossa saúde pública. As amarras burocráticas foram desfeitas para que estados e municípios pudessem se equipar, montar leitos hospitalares, contratar mais profissionais e realizar compras emergenciais em tempo recorde. Santos adequou sua legislação e fez a ‘lição de casa’, se preparando para o ‘inimigo invisível’ que cada vez mais se aproximava. De forma muito eficiente, abrimos leitos hospitalares em unidades próprias e em conjunto com hospitais filantrópicos – Santa Casa e Beneficência Portuguesa – e outros parceiros, como a Afip e o Instituto Social Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Também foram fundamentais os apoios do Governo do Estado, com o envio de respiradores e a liberação de recursos, e do Ministério da Saúde, com a habilitação mais ágil de leitos e repasse de insumos. Em quatro meses, o SUS de Santos passou a contar com 518 leitos para pacientes de Covid-19 (182 deles de UTI), média de 130 leitos abertos por mês, o mesmo que uma inauguração mensal de um hospital de médio porte.

Todo santista que se infectou pela doença tem acesso a tratamento. Cuidado que começa na triagem feita nas policlínicas e unidades de urgência emergência. Para agilizar a testagem dos pacientes, diante de problemas à época na rede estadual, contratamos no final de março um laboratório particular para realizar até 20 mil exames RT-PCR, ajudando assim nas ações de diagnóstico, assistência e isolamento dos casos suspeitos.

Com maciço investimento público, apoio de empresários e a valorosa mão de obra dos servidores estatuários, em especial da Vigilância em Saúde e da Atenção Básica, realizamos ações como os centros de testagem rápida no sistema drive thru e blitze nos bairros de maior vulnerabilidade social. Tudo isto colocou Santos entre as cidades que mais testam a população no mundo, cerca de 20 vezes mais do que a média nacional.

O momento atual comprova que é importante termos serviços estáveis com a colaboração do funcionalismo, mas que também podemos manter as ‘portas abertas’ para parcerias com a iniciativa privada e terceiro setor, visando oferecer à população uma saúde pública de qualidade. Este é o espírito do SUS que devemos preservar para solucionarmos outros gargalos no pós-pandemia.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.