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O resgate da confiança pelo poder público

Ana Paula Bertolin é Mestre em Administração com área de concentração em Gestão Estratégica da Informação e do Conhecimento pela PUC/PR e líder MLG – Master em Liderança e Gestão Pública, pelo Centro de Liderança Pública (CLP), atualmente é Assessora de Projetos no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba – IPPUC.

02 de junho de 2021 | 10h00

Os dias atuais trazem ao debate a importância da comunicação dentro de uma sociedade. Pessoas, independente do ecossistema a que pertencem, precisam ser ouvidas e precisam pertencer ao debate, necessitam ser compreendidas através de suas reais necessidades. Mas mais do que ouvidas, precisam ser escutadas, pois este ato depende de uma vontade real em se prestar atenção e tentar entender o que está sendo dito e para, a partir de então, iniciar um movimento de reflexão e assimilação, fundamental no processo democrático. É a partir deste estado que se origina o sentimento de pertencimento.

Amartya Sen, Prêmio Nobel de economia em 1998 com seu trabalho em economia do bem-estar, nos mostra em um de seus focos de pesquisa, como os valores dos indivíduos podem ser considerados na tomada de decisão coletiva e que é este o papel que se espera de uma sociedade e do Estado: o papel de construtor de políticas públicas que possam prover condições para que esta sociedade possa ser um agente ativo de mudança, garantindo mesmos acessos e mesmas oportunidades a todos além de seus direitos reconhecidos.

O autor reforça a importância do sentimento de confiança, que se relaciona como sendo proporcional ao desenvolvimento econômico e social e como ponto fundamental em tempos de incerteza. Como preparar pessoas através da educação política para que compreendam minimamente o que lhes é proposto, mostrando que suas próprias escolhas é que irão moldar o desenvolvimento de um país melhor não para hoje, mas para um futuro próximo onde gerações serão impactadas. Como preparar cidadãos para o debate, para o mundo real, longe de assistencialismos, promovendo mais participação e cidadania com sentimento de pertencimento e principalmente de confiança.

Sen reforça que os problemas são recorrentes e persistentes em nossa sociedade e que, para o seu desenvolvimento, são necessárias ações de superação destas recorrências. Afirma ainda que eliminar as privações de liberdades reais, àquelas derivadas das oportunidades sociais, políticas e econômicas, são a chave para que a sociedade possa se transformar em agente ativo, protagonista de suas próprias escolhas e oportunidades para que possam construir suas próprias histórias, oportunizadas por meio de políticas públicas promovidas pelo Estado, a partir do que tem valor para si mesmo e do que o próprio indivíduo deseja aprender para se desenvolver.

Alguns aspectos da liderança perpassam entre os setores público e privado, mas a confiança pública é exclusiva do governo. Para o líder público, ser responsável por esta confiança deve ser vocação. Tempos difíceis e desafiadores demandam líderes com habilidades diferentes para que não só exerçam a Liderança Adaptativa mas que tragam na bagagem, além da experiência política, a capacidade de defender o interesse público para implementar programas eficazes oriundos não de interesses políticos, mas sim da escuta ativa de seu povo. O compromisso com o bem público deve prevalecer.

Segundo a Transparency International – um movimento global que trabalha em mais de 100 países para acabar com a injustiça da corrupção, a confiança entre os cidadãos e governo está baixa. O Índice de Percepção da Corrupção, principal indicador de corrupção do mundo, mostra que a percepção da corrupção no Brasil permanece muito ruim. A avaliação está em 38/100, onde 100 indica países muito íntegros e 0 os altamente corruptos. O país se encontra abaixo da média dos BRICS – países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (39), da média regional para a América Latina e Caribe (41) e mundial (43). Os países do G20 possuem média 54 e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) 64. O país se encontra na 94ª posição entre 180 países, atrás de países como Colômbia, Turquia e China.

Com a confiança abalada o país encontra dificuldades em progredir e inovar. O mundo geralmente reage ao nível de confiança que o governo transmite e, conforme o movimento Transparency Internacional mostra, o enfraquecimento da democracia prejudica o desenvolvimento econômico e agrava ainda mais a desigualdade, a pobreza, a divisão social e a crise ambiental, problemas recorrentes no Brasil.

Sendo a confiança a base do relacionamento e sendo ela voltada às expectativas de futuro, compreender as reais necessidades demandadas pela sociedade é a base para a formação da confiança no governo. Para isso, a transparência se torna o diferencial, onde a partir da disponibilização de informações claras e acessíveis – além da formação de uma consciência cívica – cidadãos podem utilizá-las para monitorar e restabelecer o relacionamento de confiança com o governo.

O país se sente órfão e busca urgência em seu desenvolvimento demandando cada dia mais responsabilidades, monitoramento e controle, resultado da prática da ética, transparência e integridade como princípios básicos, dentre as liberdades instrumentais cruciais interdependentes promovida por Sen: a garantia da transparência e a segurança protetora.

Recuperar a confiança requer habilidades diferenciadas. Requer trazer do modelo corporativo, a adaptação de boas práticas para o modelo público, gerando mudanças que agreguem valor e se traduzam e materializem em benefícios sociais, com menos morosidade e maior efetividade, características de ambientes inovadores e dinâmicos baseados na transparência e na confiança. Fazer a diferença por meio do serviço público é difícil de quantificar pois o conceito de valor se torna diferente para cada uma das partes interessadas. São personas com características e expectativas diferentes de acordo com a parte que ocupam na sociedade e que demandam do poder público ações e serviços específicos. 

A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – CEPAL em 2018, aponta que a desigualdade já está incorporada à cultura e que há uma naturalização de que certos grupos desfrutem de bens e serviços que outros não acessam. Naturalizar o problema e incorporá-lo à cultura não pode ser aceitável.

Identificar lideranças dispostas a enfrentar estes desafios pode ser o início de um novo caminho. Identificar reais engajamentos em se promover uma nova cultura de governo baseada nestes princípios talvez resgate a confiança, principalmente pelo verdadeiro ato de exercer a escuta, compreender a real necessidade, ser transparente e responsivo à uma sociedade que urge pelo tão sonhado Desenvolvimento com Liberdade de Amartya Sen.

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