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O que seria de nós sem a Arte na Pandemia?

Karla Santa Cruz Coelho é médica, líder CLP pelo Centro de Liderança Pública (CLP) e professora da UFRJ, ex-Diretora da ANS. Rodrigo Scofield é músico e educador. Renato Alves é Coordenador de Relações Públicas da Rede de Líderes do Centro de Liderança Pública (CLP).

15 de junho de 2021 | 09h45

Imaginem a pandemia sem arte, sem um bom filme, um livro instigante, uma música que nos emocione, como ficaria tudo mais pesado. De alguma forma essa tragédia humanitária que assolou o mundo, nos alertou para dois pontos fundamentais das nossas vidas que são imprescindíveis para uma plena existência e até para continuarmos existindo nesse planeta, são eles: a importância da cultura em todas as formas, e como devemos preservar
a natureza e cuidar do meio ambiente.

No primeiro ponto, o da questão cultural, devemos pensar sob a perspectiva cultural embasada no olhar firme e atento do grande educador Paulo Freire, que nos ensinou que cultura não é só uma política de estado, ou escolhas exclusivamente subjetivas artísticas ou até estéticas, mas sim como se vive, o que se come, o que vestimos, até a nossa maneira de ver o mundo.

A arte pode e deve acender diversos anseios da sociedade. Como, nesse isolamento apocalíptico que vivemos atualmente, poderíamos viver sem reflexões e provocações polêmicas que nos façam romper barreiras pessoais – e culturais – para elevar o espírito individual e em grupo? Como emergir críticas comportamentais e questionar valores – próprios e dos outros, sem a releitura cultural que poucos trazem como qualquer uma das artes?

Decodificar a arte é aceitar, orgulhosamente, que o prazer estético pode retratar a fragilidade humana. E dessa fraqueza, teórica, que se reconstrói a força para sobreviver nas loucuras dos tempos modernos, que, infelizmente, não é a sétima arte de Charles Chaplin. A sociedade se expressa por meio da arte desde os primórdios e a arte é a configuração que o homem encontra para conceber o seu meio social. Se a arte é uma forma da sociedade expressar suas emoções, sua história e sua cultura através de alguns valores como beleza, harmonia, equilíbrio, nossa função como sociedade, talvez, seja indagar o que é ser belo, harmônico e equilibrado. Para após essa reflexão cultural, viver, adequadamente num novo mundo isolado ou em sociedade. As artes nos forçam a indagações éticas que nos obrigam, a evoluir individualmente. Ter arte num momento desse é manter a esperança na sociedade em momentos nebulosos e frios.

Discordamos de Sócrates que pensava: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio coisa que não adquiriu pela razão”. É a emoção e sentimento – das artes – que nos salvará como sociedade.

Partindo desse pressuposto, neste momento de nossas vidas que estamos tendo que necessariamente nos isolar, onde acabamos tendo mais tempo para refletirmos sobre nossas escolhas pessoais e profissionais, nos deparamos com o dilema de irmos contra a nossa própria natureza que é a de viver coletivamente.

Afinal a raça humana se consolidou vitoriosa como espécie exatamente por ter a capacidade de sobrevivência organizada em grupos heterogêneos e de ajuda solidária. Percebemos então como com o isolamento tudo ficou mais difícil, e como as formas artísticas foram uma ótima companhia nesse período, e por incrível que pareça uma
descoberta para muitos, pois puderam ter calma na pesquisa.

Como diria o filósofo alemão Nietzsche: “Sem música, a vida seria um erro”. Daí a necessidade primordial de mergulhar fundo no primeiro ponto porque o segundo ponto nos traz um dado crucial, não estamos cuidando do nosso planeta, como aponta o filósofo indígena Ailton Krenak, se não cuidarmos do nosso planeta, nós que fomos os últimos a chegar para usufruir dos rios, praias e florestas, seremos os primeiros a sair dizimados por nossa própria arrogância e estupidez não entendendo o conceito ancestral nativo pindorâmico que somos um (ubuntu), mas parte de um todo numa relação de interdependência que deve ser natural de compreensão e interação e
não de exploração entre a fauna, flora e nós.

É simbólico observarmos empiricamente que o vírus Covid-19 na maioria dos casos ataca principalmente as vias respiratórias, nos impedindo de respirar normalmente, enquanto que a natureza livre da nossa ação pois estamos isolados em nossas casas, exerce sua plena existência exuberante com a volta das onças pardas à mata atlântica, a transparência do canal de Veneza, os macacos nos jardins de Botafogo, para citar alguns dos fenômenos incríveis observados nesta pandemia.

Em suma a lição que está dada é que para natureza respirar, os homens vão acabar deixando de respirar.
Sendo assim, mesmo com toda a tristeza desse momento, temos agora a oportunidade de refletir como a nossa vida pode ser mais simples e repleta de encantamentos cotidianos na observação das pequenas coisas, o desabrochar de uma flor ou na cadência de uma batucada de escola de samba, em detrimento do embrutecimento provocado pela superficialidade das comunicações exclusivamente digitalizadas e monossilábicas isoladas travestidas de avatares cibernéticos deprimidos e vazios.

Arte é natureza, e natureza é vida, e vida é potência, que extrapola a individualidade e contagia a humanidade coletivamente. Acredito que estaremos após tudo isso completamente transformados para melhor, compreendendo que para estarmos bem, todos estarão bem, a felicidade só será alcançada quando não pensarmos mais hierarquicamente entre as pessoas e países e sim igualitariamente todos os seres vivos como irmãos no planeta, recheados de arte por todos os poros e ativados interiormente pelos espíritos da floresta que potencializam a natureza do ser livre.

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