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O que os melhores professores do ensino superior fazem?

Humberto Dantas

25 de abril de 2019 | 09h38

Texto de autoria de: Karla Santa Cruz Coelho, Sabrina Ribeiro Gonsalez, Karine da Silva Verdoon e Filipe Braga dos Santos. Karla é médica, Líder MLG, Professora Adjunta de Saúde Coletiva da UFRJ – Campus Macaé, ex – Diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Os demais autores são professores do curso de medicina da UFRJ – Campus Macaé e membros da Comissão de Apoio de Desenvolvimento Docente.

Esse é o título do livro de Ken Bain (“What the best college teachers do?”),  que é  professor e atual presidente do Best Teachers Institute, uma organização educacional e de pesquisa nos EUA. A obra foi publicada em 2004 e lançada em diversos países.

Quais são as habilidades e competências necessárias à arte de ensinar? Para o contexto de formação docente no ensino público superior essa foi umas das perguntas que destacamos na leitura, reflexão e discussão do livro.

O que conta como evidência de que um professor ajudou e encorajou os alunos a aprender profundamente? Os tipos de evidências disponíveis dependem tanto do indivíduo quanto da disciplina. Estilos de palestra deslumbrantes, discussões animadas em sala de aula, exercícios baseados em problemas e pesquisas ou projetos de campo aplicados podem ou não contribuir para o resultado de um bom ensino.

Na perspectiva do professor que inicia na atividade acadêmica, o preparo pedagógico é fundamental para um bom desempenho, como planejar e treinar, a forma como vai dar as primeiras aulas. Outro ponto importante, ter uma atitude afável e empática com os alunos. Sempre é bom se perguntar, se o professor teria motivação de ser aluno com a forma como a sua própria aula será dada.

Parece óbvio, mas deve ser dito para um professor em início de carreira que é fundamental o domínio da matéria a lecionar. E que é importante deixar claro para o aluno qual será o cronograma, o plano de ensino e as formas de avaliação.

Ken Bain perguntou “aos melhores professores universitários” o que fazem quando “ensinam”, e obteve como resposta: procuram criar o que acabamos denominando ‘um entorno para a aprendizagem crítica natural’. Nesse entorno, as pessoas aprendem confrontando-se com problemas importantes, atraentes ou intrigantes, com atividades reais que lhes colocarão desafios ao abordar ideias novas, rever seus conhecimentos prévios e analisar seus modelos mentais sobre a realidade. Nestas condições, os estudantes experimentam uma sensação de controle sobre sua própria educação, trabalham em colaboração com outros, creem que seu trabalho será avaliado honestamente e se realimentam com apoio de estudantes com mais experiência (BAIN, 2007, p. 29).

Pelo olhar do aluno, sujeito/protagonista neste encontro, é interessante fazer a seguinte pergunta:

Qual foi a melhor aula da sua vida?

Alguns alunos falam sobre cursos que “transformaram suas vidas”, “mudaram tudo” e até que “bagunçaram a cabeça deles”. Provavelmente teremos muitas respostas e nem sempre um padrão de desempenho que se repete.

Introduzir a ideia de que os alunos tentaram entender o significado para si mesmos, percebendo a possibilidade de argumentação com os conceitos e informações que eles encontraram, para usar o material amplamente e para relacioná-lo com experiência e aprendizado. Procurando sinais de que os alunos desenvolveram múltiplas perspectivas e a capacidade de pensar com seus próprios pés, ou melhor, seus próprios neurônios.

O docente deve perguntar-se não se os discentes passam a saber o suficiente para obter boas notas nos exames, mas sim se provocam uma influência positiva, substancial e sustentada na maneira com que os estudantes pensam, agem e sentem.

Alguns dos conceitos fundamentais: o conhecimento é construído e não recebido, e nessa construção há grande influência de conhecimentos e vivências prévias; o ensino deve ser contextualizado, pois informações aleatórias serão memorizadas por curtos períodos apenas; os estudantes devem ser estimulados a fazerem suas próprias perguntas, tornando-os protagonistas da própria aprendizagem.

Alguns professores alcançam resultados maravilhosos com grandes ou com pequenas classes, com cursos avançados ou  iniciantes, mas não com ambos. Tais casos nos permitem fazer algumas comparações entre o que funcionou e o que não fez sentido.

 

O que estamos aprendendo com os melhores professores e com seus alunos?

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro – Campus Macaé, um grupo de professores do ensino superior no campo da saúde (especificamente medicina), após um ano de encontros de educação permanente (com incentivo da coordenação do curso de medicina e reconhecidos pelo colegiado do curso, pelo núcleo docente estruturante e pelo conselho deliberativo da UFRJ – Campus Macaé) formaram uma Comissão de Desenvolvimento Docente com o propósito de ampliar e fortalecer um espaço para reflexão, discussão crítica e troca de experiências. Foi necessário um percurso pois entendemos que não basta uma adesão formal, é necessário um processo de construção de identidade do grupo que compõe a Comissão, que possibilite a articulação e atualização da temática central em torno da qual se articulam os projetos, pessoas e instituições.

Do ponto de vista da construção estratégica, um dos elementos cruciais para produzir mudanças no processo de formação dos docentes dos cursos de medicina e consequentemente nos futuros médicos é a capacidade de construir massa crítica que desencadeiem profundas mudanças, participativas e construídas com base na reflexão sobre as práticas e os modelos de ensino-aprendizagem.

Finalmente, pode-se dizer que a qualificação da formação docente na área da saúde, favorece a qualidade do processo de aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes profissionais, muito mais do que a quantidade de conhecimentos adquiridos.

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