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O Brasil e o Flamengo. O Flamengo e o Brasil

Humberto Dantas

12 de dezembro de 2019 | 16h09

Autor do texto:

Carlos Portinho é Primeiro Suplente de Senador da República pelo Estado do Rio de Janeiro, advogado especializado em Direito Desportivo, Gestão Pública e Liderança. Ele também é líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública. Neste conteúdo,  Carlos levanta pontos em comum entre a gestão do Flamengo e a gestão pública brasileira. Leia:

Desculpem o lugar comum, mas o futebol nos dá uma aula de gestão.

Em 2001 havia me especializado em direito desportivo e o meu primeiro desafio foi a frente da vice-presidência jurídica do Flamengo. Brigas políticas internas fizeram da agremiação terra arrasada e culminaram no impeachment do seu presidente. Sucederam novos “cartolas” aficionados pelo clube do coração, mas cujos resultados, assim como os seus antecessores, impactaram severamente nas finanças, por desperdícios, inaptidão, vaidade ou vil interesse.

Evidenciava-se que haveria o dia quando seria necessário um remédio amargo, dado o endividamento do clube. A Presidência de Bandeira de Mello, sucedida por Rodolfo Landim, rompeu com um modelo patriarcal de gestão. Com uma nova agenda, o primeiro recuperou as finanças do clube, em meio a sua pouca afinidade com o futebol.  O segundo, com a pessoa certa a frente do departamento de futebol, imprimiu o mesmo modelo de gestão profissional e conduziu o clube as suas maiores vitórias e arrecadação recorde. Essa fotografia do momento serve como referência ao futebol e ao País. Porque assim é o Brasil. Há um custo e muita resistência para se romper com as práticas do passado.

Cobramos resultados rápidos, mas não os programas de quem elegemos. E quando há uma política pública, o beneficiário muitas vezes manifesta dificuldade em compreende-la ou contribui para sabotá-la – ainda que involuntariamente. Por exemplo, o Flamengo entre todos os clubes do Rio de Janeiro foi o único que compreendeu os benefícios que oferecia a nova legislação federal, com o REFIS e o PROFUT, assim como cumpriu religiosamente o pagamento do seu passivo trabalhista, beneficiado pelo Ato excepcional da Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro que alinhou os seus credores. Outros clubes não compreenderam e sabotaram os programas e a si mesmos, escamoteando receitas ou inadimplindo parcelas da dívida. Aqui reside a importância de o beneficiário compreender e se enquadrar na política pública que lhe beneficia, tirando o melhor proveito, como fez o Flamengo.

No setor público é difícil enxergar em curso políticas públicas de longo prazo na sua cidade ou Estado. Governos são eleitos pelo CPF e não pelos seus projetos. Ocorre também com os “cartolas”. Sabemos que esses “jogarão pra galera” e deixarão um alto preço a pagar no futuro. Quando observamos a dança das cadeiras no primeiro, segundo e terceiro escalão com a frequência que há, custa-se a acreditar no resultado da equipe em se tratando de futebol; ou tratando-se de governo duvida-se muito que qualquer política pública resista a tantas trocas num curto espaço de tempo.

Leio, por exemplo, que na cidade do Rio de Janeiro as mudanças em cargos de gestão na Saúde em menos de 3 anos do governo atual somam 51 trocas.  Assim também é o futebol. A média de troca de técnicos apenas no campeonato brasileiro 2019 entre os 6 clubes que lutam para não sucumbir a segunda divisão é de 3 em 35 rodadas.  Recordo-me que nos últimos 8 anos no Rio de Janeiro na pasta da Habitação ocorreram mais de 10 trocas só no primeiro escalão. Eu assumi como Secretário em 2015 e como Subsecretário de Habitação em 2017. Exatamente o que me permitiu observar a diferença entre ter de fato uma política pública ou somente um discurso.

Quando se tem uma política pública, dependendo da competência do gestor ele saberá seguir o planejamento e aperfeiçoá-lo, imprimindo a sua identidade e entregando resultado. No futebol, foi o que ocorreu com Jorge Jesus.

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Significa que por mais danosa que seja a frequência das trocas, a situação se agrava mesmo é quando não há uma política pública delineada.

Em minha primeira passagem na “Habitação”, havia um programa de governo. Como resultado, nunca antes foram entregues tantas unidades e títulos de propriedade na história do Município. Nos últimos 3 anos, contudo, nenhum tijolo sequer foi entregue pela descontinuidade e a ausência de qualquer outro programa de governo. No âmbito municipal, por não haver o interesse do alcaide no tema habitação, e no plano federal devido a paralisação do Programa Minha Casa Minha Vida na cidade do Rio de Janeiro.

Em 2020, o Flamengo apresentará um novo time. O Brasil nesse mesmo ano dará aos eleitores a chance de montar o seu. Novos Prefeitos e Vereadores serão eleitos nas suas cidades. Nas próximas eleições temos a obrigação de votar em um programa de governo. Não é possível mais neste país dar a carta branca, seja a um técnico ou a um CPF qualquer, para assistir da arquibancada a tantas trocas em tão pouco tempo sem nos importar. Ou mais uma vez não teremos nada para comemorar.

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