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O “Lugar de Fala” das Cristianes: a Rede Lidera Mulher

Humberto Dantas

22 de fevereiro de 2019 | 18h02

Texto de autoria de: Laura Angélica Moreira Silva, Cientista Social, Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro, Doutoranda em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e Líder MLG. Atuou na Secretaria de Planejamento do Estado de Minas Gerais e atualmente apoia estados e municípios com foco em gestão e territorialização de ações e; 

Paola Figueiredo, Cientista Social, Mestre em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense. Vice-presidente do Instituto de Seguridade Social, Líder CLP e WIT (Women Inside Trade) e Gerente do Projeto “Lidera Mulher” na Prefeitura de São Gonçalo/Rio de Janeiro.

 

Ambas fazem parte do Women’s Leadership Network Program – Columbia Global Center.

 

Desde 2012, no Canadá há um movimento intitulado “Women of Influence” que visa a dar voz às mulheres empreendedoras, além de apoiar e inspirar mulheres a criarem seus próprios negócios, atuando como catalisadoras e multiplicadoras de mudanças em seus ambientes. Movimentos como esse tomam força por todo o mundo e no Brasil não é diferente, contudo, pensar em negócios comandados por mulheres – e mais – acelerar esse processo, ainda é necessário.

Em São Gonçalo esse esforço tem ganhado forma e amplitude. Segundo maior município em população do estado do Rio de Janeiro e com altos índices de pobreza, se torna um desafio desenvolver ações que serão vetores de mudança. Com muitas famílias comandadas por mulheres, responsáveis, senão por toda, mas por maior parte da renda familiar de seus núcleos, São Gonçalo é um município capaz de absorver a iniciativa. O primeiro passo foi mapear estas mulheres e nesta primeira etapa desafios já foram encontrados: a maioria das atividades se dão na informalidade e em empreendimentos que permitem múltiplas jornadas de trabalho. Deste modo, incorporar mulheres para o trabalho formal dando visibilidade aos negócios foi o desafio posto no momento do planejamento. O planejar, inicialmente abarcado com etapas de capacitação, garantia de espaços em feiras, exposições e lojas colaborativas se materializou, contudo o “Lidera” busca por mais: é necessário que estas mulheres se sintam parte de uma economia, em qualquer um dos eixos que movimenta o projeto: moda, beleza, artesanato e gastronomia, bem como parte de um todo.

Considerando esse potencial de influência a rede de mulheres promove mais do que encontros de capacitação. Esta é uma rede de escuta e debate em rodas de conversas com equipe técnica de psicólogas e assistentes sociais. As mulheres incorporam em seu vocabulário diário palavras como sororidade, empatia, empoderamento, protagonismo, liderança; e assim compreendem que para o projeto crescer, deverão superar suas individualidades e pensar em prol do coletivo; e que, acima de tudo, este grupo é formado por mulheres, o que as levam a conclusões de que devem saber da vida da “Ana”, que precisa sair mais cedo para pegar seu filho na creche, da “Fátima”, que está com o marido desempregado e não poderá cumprir toda escala de revezamento no espaço colaborativo, ou da “Maria”, que por seu ritmo de trabalho precisará de auxílio para finalizar suas entregas.

Gerir esse projeto implica na consciência de que, para que tudo aconteça, é preciso observar, entender, recuar, impulsionar, dar voz mesmo quando o que mais deseja é se calar. Não existe espaço para uma posição maternal. O momento da escuta é seguido do questionamento de qual passo o coletivo dará para que tal pauta seja atendida. Sair do “lugar comum” tem sido um movimento constante e de mão dupla. Essa é a mola propulsora do “Projeto Lidera Mulher”. Associado a isto, na obra “O que é lugar de fala?”, a autora Djamila Ribeiro nos atenta para a multiplicidade de vozes das mulheres, nos afastando do lugar de fala usual, muitas vezes protagonizado por homens. O ouvir da rede “Lidera” dá voz àquelas vozes inicialmente escondidas de São Gonçalo.

“No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de formas que libertam a nós e aos outros.” Essa frase da Bell Hooks nos soa como sinal de que podemos sim, ser mulheres que levantam as outras e que, em rede, cada uma assume este mesmo papel, independente de sua posição nesta teia que hoje possui cento e trinta e cinco mulheres. Encerramos assim, com a participante da “Rede Lidera Mulher”, Cristiane: “Passei a acreditar mais em mim, vi que posso correr atrás dos meus sonhos, dos meus projetos, dos meus negócios e isso foi o “Lidera” para mim. Um incentivo, um divisor de águas que daí eu comecei a despertar e ver o que realmente eu posso, eu quero e eu vou lá e faço. Me fez acreditar em mim e dizer que eu posso fazer sim, não é porque eu sou mulher que eu tenho ficar escondida atrás de alguém. Posso eu mesma levantar e correr atrás dos meus sonhos e fazer acontecer.”

 

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