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O Futuro é agora, pode não haver amanhã

Karla Santa Cruz Coelho é médica, ex-diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, professora-associada de Saúde Coletiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ingressou na ANS em 2001, ocupou o cargo na Agência de Diretora de Gestão, Gerente e Gerente- Geral de Assistência à Saúde. Emerson Elias Merhy é graduado em Medicina pela Universidade de São Paulo (1973), com mestrado em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo (1983) e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (1990). É professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 2012, Campus-Macaé.

14 de julho de 2020 | 11h00

Estamos vivendo a maior crise humanitária do planeta com o surgimento da pandemia Covid-19. E iniciamos esse texto com a frase de Ailton Krenak “O Futuro é agora, pode não haver amanhã”, um dos maiores líderes indígenas do mundo, que reflete  sobre o novo coronavírus e o futuro de nós, humanos, na Terra. Esse é o espírito do que temos produzido no Grupo de Trabalho para o enfrentamento da pandemia nos municípios da região norte do Estado do Rio de Janeiro (RJ) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, localizada na cidade de Macaé-RJ.

Desde março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde – OMS declarou que o mundo vivencia uma pandemia pela Covid-19, cada país tem se organizado, de acordo com sua realidade, para conter a transmissão do patógeno e o crescimento exponencial do número de infectados e de óbitos. Em fevereiro de 2020, quando os primeiros casos de Covid-19 iniciaram no Brasil, o Observatório de Saúde de Macaé mobilizou-se internamente para pensar qual seria o papel da universidade frente à pandemia.

Em 27 de março diagnostica-se o primeiro caso em Macaé e 28 de março em Rio das Ostras, evidenciando a interiorização da epidemia no Brasil. Em março de 2020, realizou-se contatos com alguns gestores municipais do Sistema Único de Saúde – SUS e profissionais de saúde da região Norte Fluminense e Baixada Litorânea, colocando a universidade à disposição para apoiá-los no enfrentamento da pandemia.

No fim do mês de março, iniciaram-se os encontros com gestores do SUS, e materializou-se o chamamento da sociedade aos recursos materiais e intelectuais da universidade para uma organização colaborativa frente ao grande desafio que chegava. Nessas discussões identificaram-se as demandas dos municípios. Desencadeou-se a uma mobilização interna do corpo social da UFRJ-Macaé e decidiu-se, no dia 2 de abril de 2020, pela criação do Grupo de Trabalho Multidisciplinar na UFRJ em Macaé para Enfrentamento da Covid-19, conhecido por GT COVID-19 UFRJ/MACAÉ, que atualmente reúne mais de 100 servidores, organizados em 28 subgrupos.

A formação do GT COVID-19 UFRJ/MACAÉ é um processo contínuo que está acontecendo enquanto escrevemos este texto. Foi deflagrado inicialmente pelos docentes que já atuavam na área de saúde coletiva, como médicos, enfermeiros, farmacêuticos e nutricionistas, mas também integraram-se estatísticos, físicos, engenheiros, químicos, biólogos, entre outros, e segue-se incorporando pessoas da universidade com outras expertises que se mostram fundamentais para o todo do processo. Como a notícia sobre a mobilização na UFRJ-Macaé se espalhou rapidamente pela comunidade interna, tivemos retorno de professores, estudantes e técnicos dos diversos cursos, todos se disponibilizando a participar e ajudar no desenvolvimento e execução de ações para o enfrentamento da pandemia, sendo esse o grande propósito do grupo.

Segundo estudo do MonitoraCovid-19 da Fiocruz, existe atualmente no Brasil, uma tendência à interiorização da epidemia, que está chegando de forma acelerada aos municípios de menor porte do país, com crescimento do número de casos, demonstrando um componente de rápida expansão, além da expansão em fronteiras para o Sul e Centro-Oeste, do país, onde antes havia a noção de se estar com medidas competentes para conter o avanço da Pandemia.

Essa é a nossa realidade presente e ainda não temos como prever como será o futuro. Para a escritora e jornalista, Eliane Brum, em seu último vídeo no WOW Global 24, imaginando o futuro, há a sensação do medo do presente. Ela aborda com veemência o negacionismo da crise climática de vários líderes mundiais, e ressalta que o futuro será hostil, pois eles não podem oferecer futuro. Reafirmando a ligação da crise climática e da pandemia, e de que é possível, parar e mudar. As imagens de pessoas morrendo que vemos agora com a pandemia estará marcada nas nossas vidas. Portanto, não haverá o que chamamos a volta ao normal, ou até mesmo, o “novo normal”. Brum ainda propõe mudar o centro do mundo para a Amazônia e para as periferias, desde já, para um devir mundo outro que não esse que estávamos deixando antes da Pandemia.

Um dos melhores pensamentos que ouvimos nos últimos tempos foi o do escritor e historiador, israelense, Yuval Noah Harari, quando perguntaram se o mundo seria pior ou melhor depois da pandemia. Ele disse que dependerá das nossas escolhas que faremos no presente. Por isso, precisamos entender que a universidade é guardiã da ciência e que devemos nos prevenir com as medidas que já sabemos que são efetivas, como lavar as mãos, evitar aglomerações e usar máscaras, além de se for possível, ficar em casa.

Lembrando que cuidar de si, é cuidar do outro como diz o professor de saúde pública Emerson Elias Merhy. Se nossas escolhas forem bem feitas, vamos vencer o vírus e com o acúmulo do conhecimento sairemos mais fortes e resistentes, o que nos permitirá sonhar com um mundo mais justo e menos desigual.

*Com o auxílio de Kathleen Tereza da Cruz e Helvo Slomp Junior, médicos e docentes do curso de medicina da UFRJ-Macaé.

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