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O Brasil “está preparado” para o Coronavírus? O que temos de aprender com essa epidemia?

Karla Santa Cruz Coelho é médica e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Campus Macaé, ex-diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar e líder MLG - Master em Liderança e Gestão Pública.  Camila Moreira de Castro é especialista em política pública e gestão governamental no Estado de Minas Gerais, líder MLG - Master em Liderança e Gestão Pública. Evanilde Fernandes Costa Gomides é especialista em saúde pública e gestão do SUS, funcionária do Ministério da Saúde aposentada, consultora em gestão de serviços de saúde e líder MLG - Master em Liderança e Gestão Pública.

11 de março de 2020 | 11h31

Os coronavírus (CoV) são uma grande família viral que causam infecções respiratórias leves a moderada. Diante do surto que foi iniciado na China mas que já se espalhou para os 5 continentes, a Organização Mundial de Saúde – OMS está monitorando 27 países. De acordo com a OMS, dados publicados até 03/03/2020, foram confirmados no mundo 88.948 casos de COVID-19.

No Brasil, o Ministério da Saúde – MS tem recebido informações da constantes da OMS e está realizando reuniões com as secretarias de Estado de Saúde para capacitar os servidores públicos que lidam especificamente com epidemias. No Sistema Único de Saúde – SUS, a gestão das ações e dos serviços de saúde são solidárias e participativas entre os três entes da Federação: a União, os Estados e os municípios. A rede que compõe o SUS é ampla e abrange tanto as ações quanto os serviços de saúde. Ela engloba a atenção primária, média e alta complexidade, os serviços urgência e emergência, a atenção hospitalar, as ações e serviços das vigilâncias epidemiológica, sanitária e ambiental e assistência farmacêutica. Toda essa estrutura do SUS no território nacional é colocada em alerta para atender a população frente ao cenário, até aqui desenhado.

E por quê isso é possível? Porque temos um sistema de saúde público universal, criado constitucionalmente, que garante o acesso gratuito para todos os cidadãos e, principalmente, que se constitui em rede de atenção à saúde e vem ao longos dos anos sendo estruturado, apesar de todas os problemas de gestão e do subfinanciamento. Se compararmos com outros países, o Brasil tem um sistema de saúde robusto para enfrentar a epidemia, como já demonstrou em outras situações, exemplo da epidemia de influenza A H1N1 em 2009.

Nesta segunda-feira, dia 09 de março, conforme dados atualizados do MS, o número de casos confirmados de coronavírus chegou a 25, sendo 4 por transmissão local e 21 casos importados. Atualmente, são monitorados 930 casos suspeitos e outros 685 já foram descartados.

A vigilância em saúde tem a função de identificar precocemente os casos e efetivar a notificação imediata para as secretarias municipais de saúde que irão informar as secretarias estaduais e depois ao MS. A rede de atenção deve estar com o fluxo adequado para permitir o acesso rápido para o diagnóstico preciso e tratar os casos graves. Há no Brasil uma lista de hospitais de referência em cada Estado, e eles estão preparados para fazer o diagnóstico preciso e atender os casos mais graves. Além disso, o SUS elabora medidas de intervenção para conter a transmissão, faz o contato com os casos, indica o isolamento para evitar que o número de casos aumente, entre outras medidas.

Quem conhece de saúde pública e epidemias, sabe a importância dos princípios do SUS de atendimento integral, regionalização, hierarquização e da descentralização na propagação desse tipo de doença. E nessas horas, a capilaridade do nosso sistema público de saúde faz toda diferença. A presença da atenção primária e da vigilância sanitária em 5.570 municípios do país, em diálogo constante e permanente com média e alta complexidade, permite a troca constante de informação e atuação local. Nesse sentido, as medidas adotadas garantem a assistência a todos, em todo território nacional, desde os grandes centros aos pequenos municípios, concentram na Atenção Primária, à porta de entrada para receber os pacientes no SUS, para evitar que as pessoas procurem os hospitais em um cenário de grande circulação do coronavírus. O programa Saúde na Hora será ampliado nos municípios, aumentando as unidades de saúde que ficam abertas até às 22h ou aos finais de semana para atender à população, lembrando ainda, o verdadeiro batalhão de Agentes Comunitários de Saúde que acompanharão juntamente com os demais profissionais de saúde da Estratégia Saúde da Família os pacientes em domicílios, como também na ações educativas de promoção e prevenção.

Um sistema de saúde coletiva forte reduz a necessidade de leitos hospitalares e permite um atendimento mais adequado, lembrando que ainda em dezembro de 2019 o Ministério da Saúde elaborou e publicou o Plano de Contingência Nacional para infecção humana pelo novo Coronavírus COVID-19, o qual é composto por três níveis de resposta: Alerta, Perigo Iminente e Emergência em Saúde Pública. Cada nível é baseado na avaliação do risco do novo coronavírus e seu impacto para a saúde pública, como também várias publicações entres elas os protocolos e fluxos de atendimento em todos os níveis de atendimento, deste as Unidades Básicas de Saúde aos hospitais e Unidades de Pronto Atendimento – UPA 24 horas.

Algumas ações podem ser tomadas para lidar com uma doença dessa magnitude, e a principal é evitar as fake news, na saúde temos muitas, que não são comprovadas cientificamente, como no caso das vacinas. Podemos citar algumas como “as vacinas de gripe podem matar os idosos”, “as vacinas causam autismo em crianças”, entre outras. Por exemplo, que “o álcool gel não é eficaz, somente o vinagre funciona”. Não devemos propagar essas informações que provocam desinformação e acabam gerando mais doenças. Inclusive, temos o surgimento de novos casos de sarampo que poderiam ser prevenidos com a vacinação. Estamos em plena campanha para vacinar as pessoas que não tem duas doses da vacina de sarampo até 59 anos de idade. A dengue e o sarampo preocupam mais do que a epidemia de coronavírus, e não há motivos para alarme. É importante sempre buscar as informações em sites oficiais e com especialistas antes de disseminar as falsas informações. Além disso, devemos trabalhar com as diretrizes e recomendações internacionais e em todas as oportunidades disseminar informações corretas.

A boa notícia é que o Brasil já tem muita expertise em lidar com epidemias e situações novas. O Brasil conseguiu o sequenciamento do genoma do vírus no Brasil em 48 horas por pesquisadoras brasileiras, importante falar isso na semana das mulheres. E a Fiocruz que confeccionou e disponibilizou Kits diagnósticos. Portanto, mais do que nunca, devemos investir em políticas de investimento em pesquisa científica e na capacidade dos trabalhadores em saúde de lidar com essas epidemias.

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