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O autoconhecimento na formação do Educador – Parte 3: Eu e o outro

André Lopes é líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública, educador, consultor e pesquisador de Autoconhecimento na Educação

20 de setembro de 2021 | 10h14

No texto anterior falamos sobre nós mesmos. Porém, não estamos sozinhos: além de cruzarmos com inúmeros desconhecidos cotidianamente, encontros com familiares, amigos, colegas de trabalho, estudantes permeiam nosso dia a dia. É possível que, durante a pandemia, a falta desses contatos tenha sido um dos maiores desafios. Alguns encontros são prazerosos e edificantes, nos fazem rir e relaxar, nos acalentam e incentivam, nos aconselham e dão sentido às nossas vidas; outros, todavia, são conflituosos e violentos, causando-nos tristeza, raiva, dor física ou emocional.

De que maneira observar as relações pode nos ajudar a nos conhecermos melhor? E como as relações na escola fazem parte da formação dos estudantes?

Universos se encontram

Somos pessoas únicas, com características físicas, emocionais e intelectuais próprias; em nosso jeito de pensar, sentir, agir e no espírito com que enfrentamos as dificuldades; temos cada qual nossa história de vida – desde a gestação, passando pelo parto, a infância, a adolescência, até a vida adulta – com traumas, sonhos, desejos, realizações, violências, doenças, medos, perdas, frustrações, conquistas, carências e riquezas que moldam nossas percepções, emoções, crenças e julgamentos. Somos um universo formado por características genéticas e experiências de vida. Cada pessoa deste mundo – seja nosso parente ou um desconhecido indigente – traz consigo um universo de vivências e histórias. 

Com efeito, quando duas pessoas se cruzam, dois universos distintos se encontram, e nem sempre são capazes de se compreender. Mesmo as relações interpessoais mais amorosas são naturalmente conflituosas por sermos seres diferentes que pensam, sentem, agem e encaram a vida de maneira própria.

Os desentendimentos são parte de qualquer relação, mas como estamos reagindo a eles? Estamos sempre prontos para reagir a uma grosseria com paciência? Qual o limite de nossa tolerância? Com quem este limite é maior e com quem é menor? São reflexões preciosas para fazermos periodicamente, pois como seres humanos somos imperfeitos, erramos muito e precisamos contar com a paciência dos outros, assim como estes contam com a nossa. 

Aceitar desentendimentos, nossos defeitos e os dos outros pode nos ajudar a encarar com mais empatia as pessoas com quem nos encontramos. Aprendendo a não reagir instintivamente nos libertamos dos impulsos imediatos e podemos escolher como responder aos desentendimentos que surgem: isso nos permite escolher quem desejamos ser. 

Relações difíceis 

Nessa miríade de relacionamentos do dia a dia acabamos cultivando amizades afetuosas com algumas pessoas, que podem durar anos; são parcerias de confiança para toda a vida. Com outras convivemos por um período curto, durante um curso, algum trabalho, ou num grupo de amigos; podemos estabelecer relacionamentos marcantes, mas que são levados pelo tempo, deixando apenas saudades ou alívio. E, por fim, também vivenciamos relações difíceis, nos quais o desentendimento é a regra. Com pessoas com quem não temos afinidades, desenvolvemos rixa, raiva, mágoa e rancor. Estas pessoas podem ser familiares, colegas de trabalho, vizinhos: o convívio pode ser efêmero ou duradouro.

Refletir sobre os motivos que podem fazer do convívio com alguém algo indigesto nos dará pistas sobre aspectos de nossa personalidade tocados pelo outro. Nem sempre a antipatia de alguém é generalizada: nesse conflito, algo gera uma aflição! Pense sobre o que lhe aflige, busque compreender o que aflige o outro. Em uma discussão não há vencedor, pois a tensão gerada afeta ambos (além dos circunstantes), provocando uma irritação duradoura, capaz até de prejudicar nosso sono. De que adianta procurar culpados ou vítimas? Se um bate-boca causa tanto mal-estar, como pode haver um “vencedor”? E a responsabilidade raramente pode ser atribuída a somente uma das partes quando ambas agiram mal e saíram machucadas. Um pedido de desculpas pode não significar nada se desacompanhada de uma reflexão sobre de suas atitudes, falas e responsabilidade pela desavença. 

Observe que algumas pessoas têm características ou manias que evocam pessoas, às vezes autoritárias (pais, mães, irmãos, professores etc.), que participaram de nossa infância de modo traumático. Nosso inconsciente pode nos fazer reagir impacientemente diante dessas pessoas, como a criança ou jovem que foi machucado. Quem é vítima de nossa reação às vezes não tem nenhuma culpa; precisamos compreender que a criança tornou-se agora um adulto, vive outro contexto, capaz de escolher suas ações. Isso exige um duro trabalho pessoal de mudança de comportamento e, sem dúvida, um amadurecimento interior.

Em outros casos, nos deparamos com indivíduos que apresentam defeitos que detestamos em nós mesmos: eles nos servem como um detestável espelho! A aversão então é imediata; mas na realidade deveríamos agradecê-los pela oportunidade de evidenciar, para nós, as nossas próprias características indesejáveis, permitindo que a reconheçamos em nós mesmos e que possamos mudar.

Pergunte-se qual seria o caminho para se harmonizar com o outro; ninguém consegue mudar ninguém, mas podemos oferecer nossa mudança pessoal para o outro – o que significa uma prova de amor. Quando uma relação exige de nós mais paciência, atenção, presença e amorosidade ela nos ajuda a sermos melhores e, talvez, seja esse o motivo da existência deste encontro interpessoal; observe e aproveite para transformar-se, sabendo que todo convívio um dia irá terminar.

Eu e o outro

É através do outro que podemos dar sentido à vida e desenvolver nossa humanidade; é no convívio que aprendemos a amar. Como mudar de comportamento sem alguém para apontar os defeitos; como aprender a pedir desculpas sem alguém ferido por nós; como rever uma atitude se não houver outros pontos de vista; como ressignificar um trauma sem alguém para escutar? Sozinhos corremos o risco de nos fechar em nossa arrogância.

Ao trabalhar para poder alimentar o outro, se cuidar para poder zelar pelo outro e amar para poder aceitar o outro, estamos dando sentido à nossa existência.  Somos o que somos por termos uns aos outros e estamos todos dando o nosso melhor, alguns realizando beleza, outros aprendendo a agradecer, tudo a seu tempo.

Escola: organismo vivo de relações

A escola é essencialmente um local de encontro e, desde o advento da internet, é para muitos jovens a principal forma de socialização presencial. Hoje, após mais de um ano e meio de pandemia, será onde adolescentes e crianças voltarão a se relacionar com pessoas fora do isolamento. A instituição escolar, junto com a família, constitui importante modelo de convivência para os estudantes, significando exemplo de interação social e contraponto para os jovens em relação às suas rotinas domésticas – que pode incluir negligência, violência e abuso em alguns casos.

Os estudantes aprendem com os relacionamentos na escola: a maneira como os conflitos são resolvidos, o exercício da escuta, o acolhimento de opiniões divergentes, as reconciliações e os pedidos de desculpas aceitos. Nesta fase de crescimento intelectual e social, as relações estabelecidas são parte fundamental da formação do universo de vida de cada um, e os anos escolares ficarão na memória com suas brigas, abandonos, reconciliações e afetos. Qual é a qualidade das relações que a escola cultiva com os educandos, funcionários, educadores, pais e diretores dentro de seus portões?

A cada ano docentes recebem novas turmas de estudantes para um convívio intenso nas salas de aula, um verdadeiro encontro de pessoas desconhecidas até chegarem na sala de aula, mas que estarão juntas cotidianamente. Todos levarão para a vida um pouco do que foi vivido, cabendo ao educador escolher como conduzirá as interações na sala, com seus conflitos e demandas, sabendo que suas decisões contribuirão para a formação do adulto. Criar vínculo e escutar é um caminho, seu papel como docente poderá ser restaurador ou irrelevante.  

Estamos de passagem

Construímos nosso dia com as pessoas. Observe como seu estado de espírito ao levantar da cama reverbera em seus afazeres: há dias em que estamos irritados e parece que nada se resolve; em outros somos acometidos por grosseria, reagimos e terminamos o dia esgotados. Há dias, porém, em que somos surpreendidos por gentilezas que nos ajudam na solução de algum problema.

Uma característica comum a todos os relacionamentos é sua finitude, seja nos mais corriqueiros – como no trânsito, numa loja, numa viagem, numa fila ou numa festa – como nos mais duradouros, que terminam nos casos de mortes, aposentadorias e formaturas.

E o que deixamos em cada encontro diário, ou em cada relação da vida? Qual emoção ou sentimento foi transmitido para as pessoas que o encontraram? Quais lembranças as pessoas levam após o convívio com você? Ao morrer, deixaremos os laços de afeto, de indiferença, de raiva… De que maneira estamos afetando as pessoas ao nosso redor; há beleza, amor e alegria em nossas interações? Os alunos e as alunas passam, e o que levam?  

Imagine se reverenciarmos todas as pessoas que cruzam como uma alma sagrada, como alguém que merece respeito por sua obra pessoal, pelos desafios que vem enfrentando ou por seu cuidado conosco. Como seria a sociedade?

Conclusão

Observar nos encontros diários a maneira como impactamos o outro e como estamos reagindo aos conflitos é um caminho para se conhecer através do outro. 

Hoje muitos relacionamentos são vividos virtualmente de maneira superficial, sem presença física, restando a impressão de que as pessoas não conversam mais, de que falta tempo e ouvidos para escutar o outro, de modo que impede o aprofundamento das relações. O amor é um sentimento construído pelo convívio e pela vontade de abrir seu coração para aceitar o outro. 

Cada vez mais o ambiente escolar cresce em importância; para além dos conteúdos, é onde poderemos aprender a amar.

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