As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Inovação para desenvolvimento econômico: a importância de um Estado visionário

Jonathan Henrique Souza é diretor de projetos especiais na Secretaria de Desenvolvimento Social e gerencia um programa intersetorial de combate à extrema pobreza no estado, o Percursos Gerais. É pós-graduando pelo Master em Liderança Pública do CLP – Centro Liderança Pública, e Mestre em Inovação e Empreendedorismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

17 de março de 2022 | 10h00

A partir das obras de Joseph Schumpeter, é possível entender o quão importantes são as inovações para o desenvolvimento da sociedade e da economia. A inovação tecnológica é considerada pelo autor como a responsável pela criação de oportunidades e novos mercados. Contudo, inovações não surgem do dia para a noite de forma casual. Antes de chegar a uma inovação bem-sucedida, é preciso passar por um longo processo de pesquisa, desenvolvimento e testes, sendo que em muitos casos existem erros antes de alcançar o sucesso. Além disso, é importante destacar que se trata de um processo extremamente caro e arriscado. E é exatamente nesse contexto, que, segundo Mariana Mazzucato, o Estado precisa estar presente. 

A autora destaca a importância que o Estado teve no desenvolvimento de tecnologias extremamente relevantes para os dias atuais. A internet é resultado de uma série de pesquisas realizadas por instituições vinculadas ao governo norte americano. O Iphone é o exemplo claro de como o investimento governamental em P&D é fundamental para a criação de novos mercados. Diversos componentes e funcionalidades incorporados ao Iphone vieram, também, de pesquisas financiadas pelo governo dos Estados Unidos, sendo esse produto um divisor de água no modelo de comunicação e inaugurando a consolidação dos smartphones como produto de desejo de vários consumidores.

Assim como os Estados Unidos se posicionaram para apoiar o desenvolvimento de tecnologias durante a segunda metade do século XX, outros países têm olhado para frente e se posicionando nesse cenário global que conta com novas tecnologias potencialmente disruptivas. Dubai tem investido em ser uma cidade digital com a criação de várias frentes de trabalho e investimento estatal direto no fomento à inovação. A Holanda tem se posicionado na vanguarda no desenvolvimento de aplicações em blockchain para governo e está utilizando o seu sistema de inovação como base para isso. O modelo de tríplice hélice holandês é um exemplo da interação entre universidades, governo e empresas privadas. Como último exemplo, a Estônia, país que ficou mundialmente conhecido por ser digital em praticamente todos os serviços e entendeu que a oferta de serviços públicos de qualidade e adequados à realidade digital do país era uma forma de melhorar o bem-estar de seus cidadãos. Em todos esses casos citados há uma sinergia entre governo e empresas privadas. 

Acredito ser fundamental superarmos o discurso raso sobre investimento estatal em P&D. Comprovadamente o Estado é sim um ator importante no desenvolvimento de seus sistemas nacionais de inovação e, consequentemente, na construção de uma economia de futuro. Assim como o ex-ministro da agricultura Alysson Paolinelli foi visionário com a Revolução Verde, nos anos de 1970, investindo na modernização da Embrapa e recursos destinados à pesquisa que resultaram no modelo agrícola tropical sustentável que ampliou a produtividade desse setor, precisamos pensar em agendas de futuro.

Diversos estados têm implementado laboratórios de inovação, esses que são fundamentais para que o setor público repense e redesenhe seus processos. Contudo, o significado de inovação não deve ser restrito à inovação de processos e tecnologias. O risco maior da ignorância sobre a importância da inovação para um país está diretamente relacionado com a visão míope de alguns gestores para com o tema. A inovação como desenvolvimento econômico deve ser tratada como agenda estratégica pelos governos. 

Acredito que o caminho para lançarmos luz sobre o tema começa com a definição do futuro do país. Onde queremos estar posicionados nos próximos 30 anos? Qual a agenda a ser adotada? A partir dessa definição, seria possível alocar recursos, que já são escassos, de maneira mais eficiente. 

Um segundo ponto passa pela conscientização dos governos e da população de que recursos aplicados em pesquisa não são gastos, mas sim investimentos. Essa última afirmação se sustenta quando, em meio a uma crise provocada pela pandemia, as universidades apresentaram, em tempo recorde, soluções eficientes, inovadoras e em um curto espaço de tempo. O terceiro ponto passa pelo fortalecimento e amadurecimento do sistema nacional de inovação. 

O caminho é longo e árduo, mas necessário. A discussão de inovação como estratégia de desenvolvimento econômico é antiga, mas se não for tratada com a devida atenção nos dias de hoje, pode se tornar um problema futuro.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.