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Inclusão feminina em cargos de liderança no setor público

Humberto Dantas

12 de abril de 2021 | 11h10

Autora do texto:

Renata de Araújo Rodrigues Wanderley é formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pós-graduada em Gestão Municipal pela Universidade de Pernambuco (UPE) e em Gestão de Projetos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e  é líder MLG pelo Centro de Liderança Pública (CLP). Servidora pública efetiva do Governo Pernambuco, atualmente exerce o cargo de Diretora Administrativa Financeira da Empresa de Turismo de Pernambuco Governador Eduardo Campos S/A– EMPETUR.

No texto, Renata discorre sobre os desafios que as mulheres ainda enfrentam nas relações de trabalho, dentro e fora do setor público, e os inúmeros benefícios que existem no equilíbrio de gênero na alta gestão. É fato que, mais mulheres em posições de liderança tendem a afetar positivamente na formulação de políticas. Leia o texto:

 

Mesmo após os avanços da luta feminina e dos direitos conquistados nas relações de trabalho, as mulheres no ambiente corporativo ainda enfrentam desafios, especialmente quando se fala em ascender para cargos de liderança no setor público.

A problemática é vasta, passando por questões culturais, sociais e psicológicas, onde a mulher ainda sofre preconceitos, além dos estereótipos de fragilidade e de incapacidade de conciliar as atividades de mulher, ou de mãe, com as exercidas na função de liderança, culminando com a falta de confiança que as mulheres têm em si, cujas consequências se estampam em remuneração inferior, cargos menos relevantes e falta de incentivo para se desenvolverem em cargos de liderança, requerendo que tenham de provar sua competência profissional.

Sinônimo de resiliência, resistindo aos padrões de liderança e gestão masculinizados, as mulheres vão incorporando políticas e práticas mais humanas e empáticas, e assim impondo novos olhares ao trabalho e ao exercício da liderança.

Aos poucos as mulheres foram galgando postos de gestão e poder, tornaram-se líderes, e suas atitudes corroboram com a existência de um conjunto de crenças sobre as características femininas quando imbuídas do exercício da liderança que tem ampliado as perspectivas de inclusão para as mulheres ocuparem funções mais estratégicas nas organizações. De acordo com estudos científicos, isso se deve primeiramente aos benefícios do equilíbrio de gênero na alta gestão, mostrando efetivamente que a diversidade é mais eficaz para a governança, impacto social e melhor resultado financeiro das organizações.

Em segundo lugar, pela diversidade de pensamentos, perspectivas e tomadas de decisão que as mulheres imprimem sobre as questões que as empresas enfrentam na atualidade; e por fim, pelo fato de desenvolverem competências que são características favoráveis aos líderes, tais como: facilidade de estabelecer uma comunicação de confiança; sensibilidade, que tende a priorizar o bem-estar e o desenvolvimento do colaborador; visão sistêmica; espírito colaborativo; e flexibilidade, esta indispensável para não render-se a pressão e solucionar os desafios com agilidade. Assim, comprovando que mais mulheres em posições de liderança tendem a afetar positivamente na formulação de políticas para promoção de um ambiente mais igualitário e mais justo, no setor público e fora dele.

A evolução nos modelos gerenciais públicos tem permitido que um número cada vez maior de mulheres ocupem espaços na política e na gerência de órgãos públicos, tornando-se mais propensas a assumir cargos de maior responsabilidade e exigência técnica por seus méritos, seja por indicação ou eleição, contudo, ainda muito aquém da participação masculina (SOUZA, SIQUEIRA, BINOTTO, 2011).

Tal afirmação, mesmo evidenciando que ainda há um longo e difícil caminho pela frente, também acende as iniciativas voltadas para o desenvolvimento profissional, inserção do mercado de trabalho e inclusão das lideranças femininas disponíveis para as mulheres que querem se desenvolver profissionalmente.

Exemplo dessa inclusão pode-se verificar na nomeação do secretariado da Prefeitura da Cidade do Recife, capital de Pernambuco, onde o atual prefeito João Campos (PSB), como meta de campanha, estabeleceu que 50% dos cargos seriam ocupados por mulheres, e assim o fez.

As nomeações têm se dado a partir do momento em que a sociedade passa a pautar seus líderes por características como inovação, criatividade e o olhar mais sensível, que é quando o estilo de liderança feminina ganha força e espaço.

Outro exemplo é o Programa Rio Liderança Feminina, que visa incentivar o desenvolvimento de habilidades e a criação de políticas e práticas que fortaleçam e potencializem a atuação da mulher no governo. O Programa foi idealizado após a Prefeitura verificar a necessidade de investimento em ações que proporcionem uma gestão igualitária e justa para homens e mulheres, considerando a importância do desenvolvimento feminino no contexto atual, enfatizando o reconhecimento dos talentos e competências da mulher como líder de si mesma e gestora de sua própria história e carreira na administração pública. Assim, busca oferecer meios para a servidora criar trilhas que levam ao autoconhecimento e impulsionam o seu protagonismo, possibilitando maior compreensão das escolhas de carreira, conquistando seu espaço de fala e liderança.

Entretanto, as iniciativas no setor público para inclusão feminina em cargos de liderança ainda são muito poucas. E para avançar nessa temática faz-se necessário não apenas limitar-se à imposição da lei, mas elaborar uma agenda com mudanças mais enérgicas, que dependem de uma política mais ativa dos governos e de debates sobre as questões culturais no país, por meio da difusão de valores e da educação. Efetuar mudanças dessa dimensão não constitui tarefa fácil, mas com o auxílio de políticas inclusivas, e um esforço de todos envolvidos no setor, é possível de ser realizada, e trará benefícios imensuráveis para todo o serviço público.

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