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Fui pedir dinheiro na internet para a minha causa. E se a causa fosse pública?

Laura Angélica Moreira Silva, Cientista Social, Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro, Doutoranda em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e Líder MLG. Atuou na Secretaria de Planejamento do Estado de Minas Gerais e atualmente apoia municípios com foco em gestão e territorialização de ações.

09 de agosto de 2018 | 21h29

Caso você não saiba, sou mineira e faço meu doutorado em uma das cidades mais caras do País – São Paulo. Além das minhas responsabilidades não vinculadas à Academia, a função do estudante envolve participar de Congressos, Seminários, Bancas e outros eventos com o objetivo de debater com professores e interessados pelo mesmo tema de pesquisa que o meu. Nessa história toda, entre compra de passagens, aluguéis, alimentação e demais custos vinculados a esta escolha por estudar, nunca parei para contabilizar o quanto gasto nessa ‘profissão não remunerada’, e fiquei perplexa no que dia em que resolvi colocar tudo no papel.

Fiquei perplexa por duas razões: primeiro devido a quantidade de recursos que envolve esse investimento chamado estudo, e segundo porque tive dois artigos acadêmicos aceitos para apresentação em um Congresso Internacional. Apesar de ser uma boa notícia, um estudante brasileiro, sem emprego formal, optar por ir para um Congresso Internacional é quase um paradoxo. Inclusive, considerando que tanto a economia brasileira, quanto a minha economia doméstica não vão bem, afinal sou uma estudante, a situação sai do paradoxo para ter traços de loucura. Depois de pensar muito e saber que não ir ao Congresso não era uma opção, resolvi me cadastrar em um site de doações financeiras coletivas, o famoso crowdfunding. Sim, fui pedir dinheiro online. O Congresso ocorreria nos Estados Unidos, o que gera gastos em dólar para alimentação e hospedagem, além da inscrição de três dias que custou 280 Euros. Fazendo as contas, optei por uma meta de arrecadação de seis mil reais. Só as passagens aéreas custariam em torno de quatro mil reais.

Decidida a estratégia comecei a mobilizar a minha rede. Acredito que muitos não viram os meus pedidos de socorro online. Outros viram, ajudaram e compartilharam a notícia da estudante que queria ir à América. Nesse interim recursos iam chegando, de vinte, quatrocentos e mil reais de contribuição, que obviamente tinham suas deduções para cada transação. Para cada e-mail recebido percebia que de fato essa tinha sido uma boa opção: as pessoas acreditam em causas que não são suas. Entretanto, aproximando-se a data da partida, percebi que eu não iria alcançar a meta de valor, que de fato não alcancei. Mesmo assim fui, fiz meu trabalho, e registrei minhas contas para enviar para cada um que me ajudou.

Voltei desse Congresso reflexiva. Pensei muito sobre o contexto político que estamos vivendo e como deve ser a função do candidato que está em busca de recurso para sua campanha eleitoral. Será que todos acreditam na sua causa? Será que de fato há transparência? As ferramentas existentes que tornam o processo de doação factível dialogam com os possíveis custos de uma campanha? O que faz de uma campanha algo “caro”? São tantas perguntas que voltei ao meu problema individual: o que fez com que pessoas acreditassem na minha proposta e doassem valores financeiros a essa causa? Percebi que um dos pontos relevantes foi a minha transparência nesse processo. Outro aspecto importante foi ter uma história para contar que gerasse empatia suficiente para convencer o outro a entrar na internet e depositar valores em meu nome. Por fim, acredito que ter voltado e mobilizado a rede de colaboradores apresentando resultados também fez diferença. Não sei você, mas para que eu doe recursos para uma campanha eleitoral essas variáveis comporão o meu padrão mínimo de decisão.

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