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Eu era uma piada na escola…

Humberto Dantas

28 de março de 2019 | 16h09

Texto de autoria de: Aline Costa Cavalcante de Rezende, graduada em Matemática, Professora I de Matemática na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Líder MLG, Especialista em Educação de Jovens e Adultos – UFF, Especialista em Educação Matemática, Coordenadora de Matrícula e Censo Escolar na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro; Áurea Esteves Serra, graduada em Pedagogia e História, com especialização em Direito Educacional e Gestão Escolar; Mestre e Doutora em Educação pela UNESP. Líder MLG. Atuou sempre na educação pública. Professora III de Educação – Formação de Professores — Fundação Municipal de Ensino Superior de Birigui e; Mônica Pelegrini, graduada em Geologia pela UFRJ, Líder MLG e especialista em Arte Educação pela USP. Desde 2001 atua como gerente de projetos educacionais no Instituto Ayrton Senna, onde desenvolve e implementa propostas educacionais inovadoras em parceria com redes públicas de ensino.

 

Será que não está na hora do Brasil rever as metas estabelecidas nas avaliações externas/internas? Elas conseguem abranger os aspectos da formação integral, ou seja, aspectos cognitivos e socioemocionais, e somos capazes de perceber o quão preparados estariam nossos estudantes para o mundo atual? Esses procedimentos estão dando espaço para se enxergar a real realidade da educação brasileira?

Quais são as perguntas que devemos fazer diante dessa fala: “Eu era uma piada na escola…” O que devemos pensar do acontecimento ocorrido em Suzano? Poderíamos elencar aqui inúmeras situações para tentar entender a complexidade de toda a situação. De acordo com os noticiários foram divulgadas muitas situações: pai ausente, mãe drogada, espinhas na cara, o bullying na escola, o vício nos games violentos, o tio que o dispensou do trabalho, a morte da avó. E aí podemos nos perguntar: as representações pessoais do sujeito – as nossas interioridades – são valorizadas pelas tendências pedagógicas? Independente das supostas conjecturas sobre os fatos, não é imprescindível refletir e discutir o papel da escola?

Precisamos pensar sobre qual universo conceitual da educação queremos educar. Só para lembrar, o termo educação tem origem nos verbos educere (conduzir, extrair…) e educare (criar, alimentar…), pelo que recolhe a dupla significação por eles sugerida. Educere sugere um fluxo educativo de dentro para fora. E nesse aspecto, em nada, queremos confundir com a educação familiar. Nosso foco se constrói nos aspectos da educação escolar.
Cada dia mais vemos a necessidade de se trabalhar com propostas de Educação Integral, que propõem desenvolver de forma integrada as competências cognitivas e socioemocionais de alunos e professores. Culturalmente nossa formação se estabeleceu pelo foco no desenvolvimento cognitivo, visando a desenvolver os aspectos de aprender, interiorizar e dominar conteúdos.

A história da educação está interligada à história e evolução da humanidade. Mediante as necessidades humanas, relacionais e de desenvolvimento surge à instituição social escola. Dessa forma, a história da humanidade não se desvincula da história da educação e nesta inicia-se com uma base de conteúdos e conhecimentos sistematizados que evoluíram e se modificaram a cada época. No Ocidente, a escola se configura como instituição que tem como base a transmissão do conhecimento e o pensamento lógico por meio de metodologias tradicionais. Foram décadas priorizando a aprendizagem do que foi definido como conhecimento por determinados grupos dominantes e para o que e qual utilidade esse conhecimento teria em prol desses grupos, em detrimento da produção do conhecimento.

A instituição escola era o ponto central de transmissão de valores, cultura e conhecimento, e sem questionamentos. Com isso, prevaleceu à ideia do professor que transmite o conhecimento, os conteúdos determinados por um currículo escolar para os alunos que nada sabem, como se fossem depósitos de conteúdo.
No meio deste contexto, a humanidade evolui e se transforma. Mudanças significativas em diversas áreas propiciam um repensar quanto a instituição social escola. No entanto, ainda vivemos no tempo de escolas conteudistas, com foco apenas na preparação cognitiva, sem a preocupação do ser integral que transita por ela durante tantos anos. Reformular e transformar o espaço escolar são desafios inevitáveis. A cada acontecimento, surgem múltiplas hipóteses, e se torna urgente a transformação do contexto escolar.

A função da escola nos dias de hoje vai muito além da transmissão do conhecimento, mas na urgência de desenvolver competências que permitam aos estudantes o conhecimento de si mesmos e do mundo para que se tornem capazes de lidar com sua própria vida e com um mundo em profunda e contínua transformação. E dentro desse contexto, nos perguntamos, onde estamos falhando? Precisamos oferecer oportunidades educativas que permitam que crianças, jovens e adultos sejam capazes de lidar com a velocidade das mudanças, frustrações e dificuldades da vida com resiliência, empatia, motivação, perseverança…

Em uma sociedade como a nossa onde as crianças e jovens passam parte do tempo na escola e esta é sua única referência, o propósito principal precisa ser de uma formação integral. E quando se fala de formação integral, pensamos literalmente no significado de integrar, “passar a fazer parte de um grupo ou coletividade; sentir-se … incorporar(-se)”, analisando o significado, vem uma das competência fundamentais para o desenvolvimento de um ser humano social: a empatia, além dessa competência conhecer-se, saber seus limites e suas potencialidades, ter condições de lidar com as adversidades, ser capaz de resolver problemas, transpor desafios, valorizar o outro, respeitar e dialogar, estar aberto para a convivência e o trabalho coletivo.

Nesse contexto cultural e histórico, desde a década de 90 que vivenciamos discussões e avanços significativos com relação à educação de forma que o indivíduo seja olhado como um ser ímpar, único, integral. Temos muito que avançar quando se discute educação, mas um passo significativo nesse sentido é a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que estabelece a importância do desenvolvimento das competências emocionais. No cotidiano escolar sabemos que independente de um documento norteador, as habilidades cognitivas se integram, se misturam às habilidades emocionais, pois estamos todo tempo interagindo com pessoas e as habilidades emocionais em sua essência se fazem presentes nas ações da escola, por seu próprio contexto enquanto instituição. No entanto, o processo de inserção da formação integral, do desenvolvimento de habilidades básicas e importante para a formação do estudante precisa ocorrer não como parte cultural, significativa ou metodológica de uma escola ou universo escolar específico, mas de uma metodologia sistematizada, com propósito para que de fato essa formação ocorra. A BNCC se alinha à evolução social, tecnológica, ao mundo que vivemos e às concepções sobre educação que se discutem no mundo todo.

Nessa perspectiva, estaremos de fato transformando não só a instituição escola, mas a sociedade. O reflexo dessa formação integral será sentida e marcará esse adulto que posteriormente estará no mercado de trabalho constituído de competências que promovam a melhoria na execução das suas ações e desenvolvimento de suas atividades, pessoas que saibam lidar com as diferenças e com os diferentes, proporcionando diminuição de preconceitos, mais respeito, seres humanos criativos, seguros e protagonistas de suas histórias.
Para tanto, temos um caminho longo a percorrer, precisamos quebrar as amarras com o passado e nos reinventarmos enquanto educadores, para a transformação do espaço escolar e de uma sociedade melhor. Os resultados não são imediatos, mas daqui a alguns anos não teremos mais episódios que nos levem a afirmação: “Eu era uma piada”. Para isso precisamos refletir enquanto seres sociais: que sociedade queremos? Que formação desejamos? Que profissionais queremos formar?

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