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Equipando os equipamentos de saúde mental: os desafios para a inovação no setor público

Humberto Dantas

15 de agosto de 2019 | 23h59

Autoria do texto:

Felipe Machado é líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública , psiquiatra, assessor técnico na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Governo do Estado de São Paulo e ex-diretor clínico e gerente médico do Centro de Atenção Integral a Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. Sandra Garcia é pedagoga e diretora pedagógica da Mind Lab Brasil. Cláudio Duarte é psiquiatra e diretor da Quality Saúde Mental.

Felipe, Sandra e Cláudio abordam nesse conteúdo a importância da inserção de projetos inovadores nos equipamentos públicos de saúde mental. Confira:

 

Apesar dos esforços empreendidos ao longo dos últimos anos, o atendimento em saúde mental nos equipamentos públicos permanece sendo um grande desafio. As razões para esse quadro podem ser identificadas em várias instâncias, que passam pelas idiossincrasias históricas dos dispositivos públicos e de suas instituições e também por questões mais subjetivas e pessoais, tanto dos profissionais que nelas trabalham, quanto dos pacientes atendidos e de seus familiares.
Nesse quadro de desafios vale ressaltar, em particular, as dificuldades no tratamento de dependências químicas, não apenas no Estado de São Paulo, mas em todo o Brasil. Em vigor desde 23 de agosto de 2003, a Lei no 11.343 transferiu ao Sistema de Saúde a responsabilidade pela re-educação, tratamento e reabilitação psicossocial dos autores da prática do crime de uso e porte de substância entorpecente. Essa medida, que se estendeu por simetria aos adolescentes e às crianças flagrados na prática desse ato infracional, gerou uma grave situação de exclusão dessa população do acesso ao atendimento, em função da escassa estrutura no Sistema de Saúde.

Em algumas regiões do país, o número de Centros de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (Caps) é inexistente. E mesmo onde existem, em número insuficiente, eles apresentam uma triste resistência na inclusão de dependentes químicos. Além disso, sem equipamentos públicos de saúde destinados a prestar esse atendimento especializado, não há como efetivar-se o tratamento em regime de internação hospitalar, deixando desamparados, em muitos estados brasileiros, crianças e adolescentes com quadro de dependência química.

Finalmente, mesmo nos casos em que as estruturas de saúde permitem o atendimento especializado por meio de internação involuntária, as dificuldades diárias das equipe de saúde e educação para a interação com essa população resultam em baixíssimos índices de recuperação. Essas dificuldades são causadas por fatores múltiplos que decorrem do grande envolvimento dos jovens e adolescentes atendidos com a criminalidade e a delinquência, os riscos para os profissionais envolvidos, em sua maioria mulheres, a baixa motivação para o trabalho por parte de alguns servidores que se aproximam da aposentaria e o elevado preconceito de forma geral.

Tantas resistências e entraves exigem, do gestor clínico de um hospital psiquiátrico, uma postura inovadora, que busque incorporar os avanços científicos e as novas técnicas e abordagens no atendimento em saúde mental nos projetos inovadores com propostas de ações práticas de intervenção. Os desafios enfrentados por um gestor que busque esse caminho, porém, não são poucos, como detalharemos a seguir com a apresentação da análise de uma parceria entre o Hospital Psiquiátrico Pinel, vinculado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, e a Mind Lab, empresa especializada na elaboração e implementação de projetos educacionais com o objetivo de desenvolver habilidades socioemocionais, cognitivas e éticas.
Implementada em agosto de 2017, com duração de cerca de um ano e meio, essa parceria abriu espaço para a aplicação do projeto “Mediação Terapêutica através de Jogos” em jovens entre 11 e 17 anos internados no Hospital para tratamento da dependência química.

Os resultados dessa pesquisa, ainda não divulgados, sugerem impactos positivos no desenvolvimento da capacidade atensional dos jovens e no aprimoramento da atitude mediadora dos profissionais que realizaram a aplicação. Apesar da relevância desses achados, o presente texto não pretende discuti-los. Nossa intenção é nos debruçarmos sobre os resultados qualitativos e os importantes questionamentos por eles despertados sobre os desafios da gestão pública no atendimento em saúde mental.

Apesar da anuência e do interesse da equipe gestora do Hospital em abrir espaço para novas ações na grade terapêutica (o que nem sempre ocorre em saúde pública no Brasil), o que se vivenciou ao longo do estudo foi um processo amarrado por questões institucionais num hospital psiquiátrico público com 90 anos de história e tradições arraigadas.
Inicialmente, os profissionais que trabalham na instituição mostraram-se muito interessados no curso de formação ministrado pela Mind Lab. As novas perspectivas colocadas pela metodologia foram elogiadas. Em especial a ideia de abrir um espaço, na instituição, para novas intervenções por meio do lúdico foi muito bem aceita.

Os aplicadores do Programa passaram por formação inicial e continuada, em que foram treinados para realizar mediações intencionais, ensinar estratégias e os chamados Métodos Metacognitivos para promover reflexões sobre a aplicabilidade dessas ferramentas na vida. Essa ênfase na construção do “mediador” parte do pressuposto de que é necessária a construção do vínculo entre o mediador e o paciente para que mudanças possam acontecer.

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Todos os profissionais que participaram da formação inicial perceberam o valor de estruturar um projeto que permitiria aos jovens vivenciar, por meio dos jogos de raciocínio, situações de conflito, de resolução de problemas e de tomada de decisões. Com essas experiências vivenciadas, os jovens poderiam então estudar ferramentas externas que enriquecessem seus recursos internos e lhes permitissem promover reflexões sobre como aplicar esses recursos em seu cotidiano e na forma de lidar com as drogas.

O entusiasmo inicial foi abrangente. No entanto, no decorrer da aplicação do projeto, nem todos os envolvidos se engajaram da mesma forma. Observamos que alguns profissionais demonstraram melhores respostas à implementação da Metodologia, enquanto outros apresentaram algumas resistências para quebrar comportamentos já padronizados como, por exemplo, a solicitação de sedação com uso de medicamentos para conter situações de conflito entre os jovens.
O objetivo dos encontros (10 sessões) com os jovens dependentes químicos era levá-los a refletir sobre sua condição e como poderiam usar o que aprendiam com os jogos de raciocínio para evitar recaídas, melhorar suas relações familiares e “reescrever” seus projetos de vida após a saída do hospital. Os dados coletados indicam que as funções “atenção”, “controle inibitório” e “planejamento” tiveram bom desenvolvimento no grupo submetido ao projeto. A participação optativa dos jovens gerou flutuação na presença, o que prejudicou esse aproveitamento.

Diante de todas essas constatações, podemos refletir que a inserção de projetos inovadores nos equipamentos públicos de saúde mental implica não só em ajustes operacionais, que podem e devem ser coordenados pelo gestor, mas principalmente, em mudanças de paradigma. Não basta atualizar os procedimentos terapêuticos. É preciso investir na formação contínua dos profissionais envolvidos nesse atendimento, de forma a construir um olhar para os jovens como sujeitos de contextos complexos, tanto dentro como fora da instituição. É preciso configurar espaços significativos de convivência, mediados por recursos como os jogos, por exemplo, que facilitam a promoção de conversas e reflexões sobre os problemas vividos. É preciso ainda ampliar a atitude mediadora de toda a equipe de profissionais da instituição, de forma a ampliar a escuta e o trabalho em equipe.

Para inovar não basta abrir espaço, é preciso abrir a mente. É preciso cuidar de quem cuida!

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