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Envelhecer com saúde é uma possibilidade

Humberto Dantas

20 de setembro de 2018 | 09h40

Texto de autoria de: Karla Santa Cruz Coelho, líder MLG, médica, ex-Diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar, Doutora em Saúde Coletiva e Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Dona Adélia está em um abrigo na região serrana do Rio de Janeiro, ao visitá-la vi muitos idosos dormindo no sofá, alguns gritando que queriam ir ao banheiro (mas estavam com fraldas). Ao me avistar, abraçou-me, vi nos seus olhos que não se lembrava de mim, apresentei-me, dei muitos beijos e um longo abraço. Ela estava linda, penteada, com batom rosado, toda arrumada, uma bolsa preta colada no corpo, inseparável.

Fomos até o jardim e avistamos duas cuidadoras, elas disseram que ela não parece moradora de lá, pois não dá trabalho. Só para ir à missa, pois se demoram a abrir a porta, ela pula a janela.  Nós contamos que ela trabalhava numa multinacional e falava várias línguas.

No quarto, mostrou as fotos dos filhos, da neta, dos pais, dos irmãos, falou da sua rotina, e perguntava.

– Qual é o nome desta cidade?

E voltava a perguntar:

– Que cidade é essa? De quem é esse pijama? Para onde você está me levando? E essa sacola, de quem é? Por que estou carregando?

Respondi pacientemente todas essas perguntas, ela finalmente encerrou a conversa.

– Minha memória está se apagando, sabe?

Nesta hora uma lágrima caiu do meu rosto. Ficou a dúvida: será que ela tinha noção do que estava acontecendo? Voltou a saborear seu sorvete de morango com creme. Da janela do abrigo, falou:

– Volte sempre.

No carro, de volta para casa, pensei que, ela já não se lembra de mim, do domingo, do sorvete, mas eu me lembro bem quem ela é.

Dona Adélia tem 75 anos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE), a média de vida de um cidadão brasileiro é de 76 anos em 2018. Expectativa ou esperança de vida corresponde à quantidade de anos em média que uma determinada população vive. Esse item é um importante indicador social que serve para avaliar a qualidade de vida de uma população de um determinado lugar.

A qualidade e o fim da vida de Dona Adélia serão parecidos com a de muitos idosos no Brasil. Em 2060, a população brasileira idosa (acima de 60 anos) mais que dobrará de tamanho e atingirá 32,1% do total de habitantes. Atualmente, ela representa 13,4%. Em 2060, um quarto (25%) da população terá mais de 65 anos e a expectativa de vida será de 81 anos.

Um efeito do envelhecimento populacional é o aumento da prevalência de doenças crônicas. Segundo o IBGE, 40% dos brasileiros adultos já vive com essa condição. O que faremos com nossos idosos, como Dona Adélia, que possui demência senil? E como a saúde lidará com essa população cada vez mais presente no Brasil, nas cidades, nas ruas e nas nossas famílias? É essencial promover a discussão de modelos de atenção que tenham foco em idosos, com coordenação do cuidado, no qual um profissional é responsável por isso. Investir em espaços compartilhados de lazer e atendimento multidisciplinar é salutar para evitar o isolamento e a depressão tão comum nesta faixa etária.  Alguns projetos de estímulo à alimentação saudável e à prática de atividades físicas vêm sendo realizados com sucesso. Estes são voltados para a prevenção e para a qualidade de vida, possibilitando, assim, envelhecer de forma saudável.

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