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Ensino remoto, presencial ou híbrido? Entenda os próximos passos da educação na pandemia

Marcela Trópia é graduada em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e pós-graduada em Liderança e Gestão Pública pelo CLP – Centro de Liderança Pública. Em 2020, foi eleita vereadora pelo partido NOVO em Belo Horizonte com 10.741 votos, sendo a sexta mais votada da cidade.

06 de agosto de 2021 | 14h59

A pandemia do coronavírus e a necessidade inicial do fechamento das escolas forçaram intensas mudanças no setor educacional. A adoção emergencial de um ensino remoto trouxe grandes desafios para os gestores da educação, mas por outro lado permitiu também que fosse adquirido um olhar mais apurado para a real situação das famílias brasileiras. Agora, com a progressiva reabertura das escolas ao redor do país e o conhecimento adquirido ao longo de 2020 e 2021, mas ainda sem a possibilidade de retomarmos salas completas de alunos, está posto o novo desafio da criação de um sistema híbrido de ensino.

Em março de 2020, escolas do mundo inteiro se fecharam diante da ameaça do coronavírus, a fim de aumentar o isolamento social. Tratava-se de uma decisão temporária, tomada na urgência de frear as curvas de contaminação. Mas, no Brasil, esse fechamento foi longo demais, com uma média de 279 dias de escolas fechadas (INEP, 2020). Foi um período muito superior ao de outras nações como Chile (199 dias), Argentina (199), México (180), Portugal (67), França (43), conforme o monitoramento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Assim, o ensino remoto emergencial se tornou um fechamento prolongado e, desde o último ano, gestores educacionais e professores ao redor do país criaram uma nova rotina. O conteúdo foi adaptado, na medida do possível, para um cenário em que os alunos não estão em sala de aula. Seja através de ambientes virtuais ou até mesmo com o envio de atividades impressas para as residências dos alunos, o que se viu foi uma tentativa de estabelecer um formato em que crianças e adolescentes se mantenham ativos em meio ao cenário pandêmico e a impossibilidade de reunir salas repletas de estudantes.

É importante diferenciar os modelos de ensino, pois cada um traz um desafio específico. Não se pode confundir o ensino remoto emergencial que vivemos ao longo desse período em que as crianças ficaram em casa com o homeschooling, por exemplo. No homeschooling, as famílias escolhem conduzir a formação pedagógica das crianças, pessoalmente ou através de tutores. Esse é um método muito diferente da situação que nos encontramos em 2020, imposta a todos por uma crise de saúde pública. Também não se pode confundir com o Ensino à Distância (EAD), planejado a partir da perspectiva de que quase a totalidade da aprendizagem será realizada sem o contato direto com os estudantes.

Afinal, o que há de diferente no ensino híbrido?

Diferente de todos esses modelos citados, o ensino híbrido tem se mostrado como a principal alternativa para o período de transição em que acabamos de adentrar. A retomada de aulas presenciais ao redor do país tem sido feita de maneira gradual e facultativa, composta em geral por grupos pequenos de alunos em sala de aula, por períodos específicos, somado a um outro grupo de alunos participando de maneira remota.

O ensino híbrido é um modelo que precede o período pandêmico e que, diferente do ensino remoto emergencial, não é apenas a adaptação do conteúdo que inicialmente seria ofertado de maneira presencial. Trata-se de uma complementação entre elementos do ensino presencial e remoto, sendo que este último pode ser promovido através de tecnologias digitais. É um formato que considera, portanto, diferentes ambientes de aprendizagem, o que traz desafios novos para os profissionais de educação.

A vantagem do ensino híbrido, no entanto, é justamente a sua flexibilidade e capacidade de adaptação a diferentes modelos de escola. Existem metodologias mais customizáveis às escolas tradicionais, como a sala de aula invertida, em que alunos são convidados a estudar os temas com antecedência e, quando juntos, o professor promove o aprendizado através de debates e discussões. Já a metodologia de rotação por estações, que normalmente é usada em escolas mais inovadoras, permite que grupos de alunos trabalhem em atividades diferentes, explorando percursos distintos de aprendizagem e depois revezando as atividades entre si. É uma alternativa que pode funcionar no atual modelo de pequenos grupos presenciais, usado por muitas escolas durante a pandemia.

Quais são os desafios de adotar ensino híbrido?

Se por um lado o ensino híbrido permite mais flexibilidade e inovação, por outro, ele exige que os profissionais de educação se adaptem ao novo cenário, principalmente ao uso da tecnologia digital como ferramenta de ensino. Outro ponto fundamental é a revisão das avaliações, que devem ser feitas de maneira sistemática, deixando para trás a concepção de que aprendizado corresponde a conteúdo decorado. É preciso entender que, neste novo cenário, o aluno tem mais autonomia sobre seu aprendizado e o professor atua mais como orientador, apontando os melhores caminhos e curando os conteúdos e informações mais relevantes para cada um.

Também será necessário encarar com seriedade os impasses que ainda vemos no Brasil, especialmente nas redes municipais. Até 2018, só 26% dos alunos estudavam em escolas com velocidade ou banda de internet suficiente para desenvolver atividades (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Não há como negar também que existe uma lacuna tecnológica especialmente nas famílias de menor renda. Também precisamos lidar com o fato de que boa parte do corpo docente, em especial do setor público, requer formação específica para trabalhar nesse novo contexto.

Por que devemos abraçar esse novo formato?

Mesmo diante dos desafios postos, não podemos deixar que esses problemas travem o desenvolvimento de um novo modelo educacional. Primeiro, porque não temos outra opção senão trabalhar para que o sistema híbrido garanta, de maneira efetiva, a oferta de ensino aos estudantes brasileiros durante este período de transição. Afinal, a retomada do formato majoritariamente presencial está longe de ser uma realidade no país.

Outra razão que traz ainda mais urgência na construção do ensino híbrido é a necessidade de se combater o abandono e a evasão escolar. São vários os motivos que já estão levando os jovens a desistirem dos seus estudos na pandemia: o medo de adoecer, o receio de estar muito atrasado, e até mesmo a necessidade de trabalhar para compor a renda familiar. Em 2020, 4 milhões de estudantes (de 6 e 34 anos) abandonam estudos e 17,4% já não tinham a intenção de voltar em 2021.

Por fim, é preciso destacar a necessidade de recuperar a aprendizagem perdida durante o fechamento. Uma pesquisa feita pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo mostrou que um aluno da rede, de 10 anos de idade, tem desempenho pior hoje do que ele mesmo tinha quando estava com 8. Para garantir o aprendizado nesse período de transição, não basta adaptar o conteúdo presencial para o remoto como fazíamos antes. É preciso usar o que aprendemos até agora para construir esse formato em que presencial e remoto se complementam, tirando o que há de melhor dos dois ambientes de aprendizagem.

Preocupa o fato de que 21,9% das escolas particulares brasileiras já adotaram o ensino híbrido, contra apenas 4% das escolas públicas (INEP, 2021). Mais do que nunca, a escola precisa ser um ambiente atrativo para a atual geração, e abraçar o ensino híbrido – e a inovação e tecnologia que vem junto a ele – é um passo fundamental para atualizar a escola pública brasileira, não apenas para o período de pandemia, mas para o que o momento atual exige dos jovens.

Com o número de casos de Coronavírus ainda alto e a falta de definição quanto à disponibilidade de vacinas, o CNE aprovou a possibilidade de postergar o retorno integral do ensino presencial para até o final de 2021. De caráter mais orientador do que impositivo, o Parecer 11/2020 do CNE, vai de encontro à impossibilidade de retorno à normalidade nas escolas, mas também à necessidade de se desenvolver planos capazes de fornecer respostas efetivas para assegurar o direito de todos à educação.

Conforme pesquisa da Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) em parceria com o Instituto Rui Barbosa (IRB), 84% declararam que já iniciaram essa preparação, mas gostariam de orientações dos órgãos e conselhos de educação. As principais frentes desses planejamentos são as avaliações para identificar níveis de aprendizagem e preparar intervenções, reorganização dos espaços físicos e condições de higiene para evitar a contaminação pela Covid-19 e busca ativa de alunos para combate à evasão, além do acolhimento de estudantes e demais membros da comunidade escolar. Nesse sentido, o Instituto Unibanco desenvolveu o protocolo “Acolhimento: ações híbridas e contínuas”, que propõe atividades estruturadas que podem ser utilizadas ou servir de inspiração para a promoção do apoio socioemocional durante esse momento.

O parecer também reforça a importância dos planejamentos estarem de acordo aos objetivos de ensino previstos na Base Nacional Curricular Comum , de preverem a compensação da carga horária curricular através da contabilização das horas de ensino remoto e de estabelecer meios de acolhimento, avaliação de aprendizagem e revisão de conteúdos após a retomada presencial, entre outras recomendações.

Além disso, entre as recomendações pedagógicas, o parecer coloca as atividades de ensino não-presencial como essenciais para complementações ao retorno gradual à sala de aula.

“As redes de ensino e escolas poderão utilizar estratégias não presenciais para a reposição da recuperação da aprendizagem em complementação às atividades presenciais de acompanhamento dos alunos. É importante lembrar que a aprendizagem não acontece somente dentro do ambiente escolar. Aprender a gerenciar vários espaços e a integrá-los de forma aberta, equilibrada e inovadora é essencial. As atividades remotas e o acompanhamento das práticas, dos projetos e das experiências, que ligam o estudante ao mundo que o cerca, podem integrar a carga horária dos diferentes componentes curriculares, flexibilizando o tempo de presença em sala de aula e incrementando outros tempos de aprendizagem.”

Entretanto, cabe destacar as diferenças desse novo momento do que vinha acontecendo até agora, que é mais focado no ensino remoto emergencial. Aplicados conforme os cuidados sanitários exigidos pelas autoridades locais, os encontros presenciais com os estudantes são fundamentais para o funcionamento dessa retomada gradual.

Para o período posterior à emergência sanitária da pandemia, esses modelos também viabilizam possibilidades para implementação do Novo Ensino Médio, pois viabilizam a possibilidade de personalização do ensino, o protagonismo e autonomia do estudante como base.

Da mesma forma que o ensino remoto emergencial, esse novo momento precisará considerar as inúmeras desigualdades (como acesso a internet e ao computador, por exemplo) para ser realmente efetiva. Por isso, gestores precisam realizar diagnósticos para conhecer a fundo a realidade de seus estudantes de modo a ter subsídio para elaborar soluções e ferramentas que sejam acessíveis a todos, sob risco de excluir parte do corpo discente da aprendizagem proposta para este momento de retomada.

Conforme escreve o pesquisador George Ricardo Stein no livro “De Wuhan a Perdizes: Trajetos Educativos”, disponível no CEDOC do Observatório de Educação através deste link, é preciso ter em mente que a experiência escolar com alunos e professores reunidos em um mesmo espaço físico durante um tempo definido não se aplicará ao contexto atual de retomada.

Conforme explica a pesquisadora Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida no livro “De Wuhan a Perdizes: Trajetos Educativos”, a pandemia evidenciou ainda mais a necessidade de transformações nos currículos escolares, os quais precisam estar conectados às novas tecnologias e aos desafios reais do mundo contemporâneo.
“O currículo do futuro deve ser flexível e aberto à articulação com as múltiplas culturas, à incorporação de questões que emergem da realidade, trabalhando com problematizações, projetos, aprendizagem pela investigação e outras metodologias ativas em experiências curriculares constituídas nas redes”

Conforme a pesquisadora, com planejamento e adequação na estrutura já existente nas escolas, é possível começar a aplicação de metodologias de ensino híbrido. Entre as medidas sugeridas pela pesquisadora, está o fornecimento de conteúdo offline para estudantes que não têm internet como vídeos, mapas conceituais ou outros materiais e também a remodelagem dos laboratórios de informática, mudando o formato enfileirado tradicional para uma distribuição de computadores que possibilite trabalhos em grupo.

Considerando essas perspectivas, adotar modelos híbridos de educação não é apenas a resposta para o retorno gradual da normalidade nas escolas, mas também caminhos de soluções a serem adotadas em definitivo, e melhor articuladas ao que preconiza a Base Nacional Curricular Comum, abordada em outro especial, que você pode conferir clicando aqui.

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