As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Empreendedorismo: solução e desafios

Humberto Dantas

03 de outubro de 2019 | 17h41

Autor do texto:

Cézar Rogelio Vasquez é engenheiro de produção pela UFRJ, com mestrado em engenharia de produção pela COPPE/UFRJ, MBA em finanças pelo IBMEC/RJ e pós-graduado pelo Master em Liderança e Gestão Pública – MLG. Ele é ex-Diretor Superintendente do Sebrae/RJ e hoje atua como consultor em Empreendedorismo e Políticas de Desenvolvimento.

O Líder MLG tem autoria desse conteúdo que fala sobre o mercado de serviços empresariais e as redes de apoio aos empreendedores. Confira:

A lenta recuperação da economia e do emprego, especialmente do emprego formal, tem chamado atenção para o aumento de brasileiros que trabalham por conta própria, informais e como o MEI (Micro Empreendedor  Individual), ou como titulares de microempresa com até um empregado. Hoje, quase um terço da população economicamente ativa se enquadraria em alguma modalidade de empreendedorismo dessa natureza. Neste momento, a redução no desemprego tem sido largamente associada aos pequenos empreendimentos.

Porém, um grande percentual de pequenos empreendimentos não é sinônimo automático de vitalidade econômica. Especialmente se há predominância de empresas de baixa produtividade e alta informalidade. Ou seja, nossas altas taxas de empreendedorismo são ao mesmo tempo uma solução e um problema.

Mesmo com taxas mais elevadas de crescimento da economia nacional, dificilmente serão gerados empregos de qualidade que abarquem um contingente tão expressivo da população. Em outras palavras, para enfrentar a questão da baixa produtividade média na economia, melhorar a renda média nacional e simultaneamente fazer frente à questão do emprego, a pequena empresa tem que fazer parte do centro da política econômica do país.

Há três diferentes agendas associadas a essa questão:

  1. A primeira diz respeito à relação entre as empresas e os empregados. Legislação trabalhista, previdência, etc. O que envolve a busca de um equilíbrio entre a flexibilidade, que pode reduzir a informalidade e o próprio desemprego, a estabilidade que favorece a manutenção de vínculos mais duradouros e o aumento do aprendizado no trabalho e, consequentemente, da produtividade.
  2.  A segunda, à relação entre as empresas e o mundo dos impostos. A reforma tributária e como serão tratados O Simples e a figura do MEI, por exemplo. Um complexo equilíbrio entre incentivos que favorecem a formalização e inibem o crescimento das empresas.
  3.  A terceira engloba a relação das empresas com o mercado, em particular a segurança jurídica, o acesso a capital e a serviços de desenvolvimento empresarial.

As duas primeiras agendas dependem de acordos de natureza política e de visões desejadas para o futuro do país. Ou seja, se inserem no âmbito das discussões das reformas estruturais. A terceira é mais ligada a pautas que, se não exclusivas, dependem mais de iniciativas do executivo, muito embora também representem um considerável desafio. Desafio que deriva do tamanho e do crescimento contínuo do público alvo.

>> Conheça boas práticas no Setor Público

Como assegurar acesso a serviços de desenvolvimento empresarial, financeiros ou não, por parte de um grande número de empresas e empreendedores, a maior parte deles com pequeno faturamento? Afinal, empresas mais produtivas requerem empreendedores mais capacitados e acesso à serviços.

Nesse esforço, é forçoso pensar no papel do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. O SEBRAE (então CEBRAE) surgiu em 1972 como um bureau de serviços. Em um momento em que inexistia um mercado estruturado de serviços empresariais, em particular para pequenas e médias empresas. Na ata de fundação está expresso o foco no atendimento por meio de consultorias e treinamentos.

“Cebrae (Centro Brasileiro de Assistência Gerencial à Pequena Empresa), órgão vinculado ao Ministério do Planejamento e ao BNDE. Com sede no Rio de Janeiro, o Cebrae, inspirado em trabalhos técnicos feitos pelo Ministério do Planejamento, tem como foco o atendimento às pequenas e médias empresas, realizando a capacitação empresarial por meio de consultorias caso a caso e treinamentos gerenciais.”

Em 1991, o CEBRAE se transforma no SEBRAE, um serviço social autônomo. Uma entidade privada, sem fins lucrativos, administrada com a participação do setor público e do setor privado. Ao longo da sua história, o Sebrae teve um papel fundamental na concepção e implantação da legislação atualmente vigente para as micro e pequenas empresas, além de políticas públicas destinadas à melhoria do ambiente de negócio. Da mesma forma, foi pioneiro em diversas iniciativas de política industrial, através de projetos focados em segmentos e clusters empresariais. Mesmo assim, o modelo de bureau de serviços continuou representando sua marca e o elemento principal de sua atuação.

Apesar da sua atuação consistente e de sua capilaridade em todo o território nacional, o SEBRAE sozinho, através de sua estrutura de atendimento, será incapaz de atender essa demanda crescente. É preciso repensar o seu próprio papel e substituir a palavra atendimento do seu texto fundador pelo acesso. Deixar de ter cliente, como um mega bureau de consultorias e treinamentos, e passar a atuar como um agente ativo da construção de mercados que facilitem o acesso das pequenas empresas à serviços.

Construir mercados, esse é o conceito chave. Vejamos o caso específico dos serviços financeiros. Recentemente foi largamente noticiada pela imprensa a chamada “guerra das maquininhas”. Diferentes operadoras mudando as suas regras de operação e baixando os custos para seus clientes, em uma clara competição por preços e fatias de mercado. E qual era o público alvo principal? Justamente esses milhões de empreendedores de pequeno porte.

Muitas dessas empresas tem associado os serviços financeiros à outras modalidades de serviços empresariais, de forma a atrair novos clientes e, ao mesmo tempo, reduzir o risco das operações. A própria ideia da existência de uma “guerra”, que indica a densidade do mercado em questão, já deveria ser suficiente para afastar uma instituição do Sebrae da oferta desse tipo de serviços, ainda que com o pretexto de criar parâmetros para os demais players.

Atuar na disseminação de informações e na formação de conhecimento em conjunto com os órgãos responsáveis pela regulação, no caso o BC e CADE, é o melhor caminho. Essa foi a tônica do SEBRAE ao longo de sua história na relação com o mercado de crédito para MPEs.

Mas há diversos outros tipos de serviços empresarias no qual se destaca a atuação do SEBRAE. Consultorias, treinamentos, EAD, serviços técnicos especializados, serviços tecnológicos, suporte para abertura de empresas, apoio para digitalização e e-commerce, marketing, acesso à mercados e muitos outros. A novidade é que esses mercados já não são insipientes como em 1972. Hoje, a atuação do SEBRAE como ofertante de serviços pode até funcionar como um freio e fonte de de formações para o bom funcionamento e crescimento desses mercados.

O modelo de contratação de serviços terceirizados pelo SEBRAE, com o qual ele atende a maior parte de sua demanda por atendimento, derivado das normas exigidas pelo uso de recursos públicos, impõe um enorme controle sobre preço a cada operação e regras de atuação que inibem a concorrência, mesmo no seu mercado interno de fornecedores.

Mas a questão central é a diferença de alcance entre o “modelo de atendimento” de um bureau de serviços e a “ampliação do acesso” de uma agência de fomento. E aqui nos deparamos com dois problemas complexos. Afinal, pensar e agir como um ofertante de serviços, de excelente qualidade, é um modelo conhecido e parte da cultura da instituição. Atuar na construção e apoio à mercados não é uma tarefa com garantia de sucesso, exige uma visão de política pública e de avaliação de resultados que admita um processo permanente de ajustes e revisões e mesmo de fracassos eventuais.

No excelente livro “Como Funcionam Os Mercados – A nova economia das combinações e do desenho de mercado ”, de Alvin Roth, o autor faz o seguinte alerta já na introdução: “Cada mercado tem uma história para contar. E as histórias sobre desenho de mercado costumam começar com um fracasso – o mercado não oferece densidade, não consegue aliviar o congestionamento, ou tornar a participação segura e simples”. Atuar para ampliar a oferta e assegurar o acesso a serviços empresariais apresenta todos os riscos.

Para certos segmentos e serviços, o problema da densidade é um fato. A maioria dos empreendedores nem imaginam precisar de um serviço e por isso mesmo há escassez de oferta, especialmente quando pensamos na “base da pirâmide empresarial”. Nesse caso, deveria-se experimentar modelos alternativos de assistência técnica, em rede e colaborativos. Além da interação com diferentes cadastros de programas sociais e níveis de governos. Um mercado que envolveria ONGs, OS, empreendedorismo de impacto social explorando diferentes possibilidades de indução.

As questões de segurança e simplicidade podem ser a diferença entre o céu e o inferno. A simples possibilidade de alocação de recursos públicos para viabilizar o acesso a serviços privados, com decisões fora da burocracia, pode parecer um crime a priori. Imagine a hipótese de uma microempresa decidir sozinha, ainda que com base em uma lista prévia, apenas com base em informações geradas a partir do funcionamento do próprio mercado, como hoje acontece com os “marketplaces” privados, qual é o fornecedor mais adequado e receber algum tipo de subsídio para a contratação deste serviço. Só para contextualizar, no Sistema de Gestão de Fornecedores do SEBRAE essa escolha é feita por rodízio, entre empresas previamente selecionadas e cadastradas no sistema, sem qualquer possibilidade de interferência da empresa que receberá o serviço.

Isso sem falar que o volume potencial do público alvo, tomado como um todo (um terço da PEA como dito acima), é um potencial gerador de problemas, tal como a atração de uma multiplicidade de ofertas irrelevantes e inadequadas, que podem acabar afastando participantes e condenando ao fracasso qualquer tentativa. Ou seja, é preciso ir devagar (nem tanto) e por partes.

Essas são algumas questões preliminares. Há muitas outras, tal como a desburocratização, e aqui a nota positiva da Lei da Liberdade Econômica, e a criação de um programa de apoio a empresas em fase de alto crescimento.  Mas o fato mais importante é que o país precisa com urgência incorporar a pequena empresa no centro de sua política de desenvolvimento, e que para isso os velhos instrumentos já não atendem aos novos desafios.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: