As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em tempos de coronavírus: A rotina do SUS e do profissional de saúde frente a uma pandemia

Humberto Dantas

20 de março de 2020 | 08h00

Autora do texto:

Yula de Lima Merola é doutora em Ciências da Saúde pela Unicamp e pós-graduanda no Master em Liderança e Gestão Pública (MLG) do CLP – Liderança Pública. Atualmente é Professora da Faculdade de Pitágoras de Poços de Caldas- Kroton Educacional. No texto, a líder MLG conta como é ser uma profissional de saúde na linha de frente de uma pandemia mundial e invisível. Leia:

No domingo à noite, eu estava organizando a agenda para começar uma nova segunda-feira e me deparei com os noticiários sobre a pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Logo, pensei comigo mesma “amanhã não será mais um dia normal”. Afinal, sou uma profissional de saúde que trabalha em uma Unidade de Pronto Atendimento-UPA de um município abaixo de 200 mil habitantes do Estado de Minas Gerais, que atende em torno de 750 pessoas dia.

Acredito que todos os profissionais de saúde do Brasil foram orientados para atender pacientes em casos de pandemia, elaboramos até um plano de contingência. Mas, na vida real tudo se torna diferente. Além de não termos posse de protocolos que nos direcionem como proceder, também nos deparamos com a incerteza de que realmente haverá insumos, profissionais e leitos para atender uma demanda de diversos níveis de complexidade.

Ao longo dos dias, tudo isso torna a rotina extremamente estressante e consequentemente muito desgastante.

Além destas questões, a todo o momento é exigido do profissional maior atendimento, tanto às pessoas assustadas que precisam de conforto quanto à sua equipe que está na linha de frente, buscando respostas em cima de um determinado problema, que para você também é desconhecido. E aí, o que você faz? Aqui é outro desafio: a busca do conhecimento que nunca acaba, a fim de levar as informações mais atualizadas e referenciadas.

E como estamos hoje nas unidades de pronto atendimento ou unidades básicas de saúde? Lotadas. Pacientes doentes e idosos com comorbidades que precisam de atendimento, pessoas assustadas querendo saber se tem o coronavírus e pessoas curiosas, que chamamos de visitantes, que querem saber o que está acontecendo. Nós entendemos a inquietação da população, pois é uma enfermidade com muitos pontos a se determinar sobre qual o período de transmissibilidade, se o período pré-clínico transmite, a real taxa de letalidade, dentre outras.

Existem evidências que o vírus tem baixo poder de nos afetar individualmente, mas coletivamente impacta no sistema de saúde. A desinformação e o desconhecido são os grandes geradores de pânico que levam as pessoas para os postos de saúde e as UPAs, sobrecarregando o sistema como um todo. É fato que existe um clima de apreensão e não sabemos quando a nossa rotina será ainda mais incomum, intensa e desafiadora.

Este é o nosso SUS – Sistema Único de Saúde, que atende em torno de 70% da população brasileira, tem em seu conceito universal muitos pontos fortes e, claro, oportunidades de melhoria que são suportados por profissionais de saúde e colaboradores envolvidos e engajados no propósito que é cuidar da saúde das pessoas, que não se cansam de ter dedicação de prestar toda a assistência de forma humanizada mesmo enfrentando todo tipo de dificuldade.

E por fim, e não menos importante, é em momentos como este que é importante reconhecer o valor que o SUS representa. Que essa janela de oportunidade seja um ponto determinante para sensibilizar ainda mais os nossos governantes para a destinação prioritária de investimentos em um sistema saúde que é motivo de orgulho para a nossa nação.

#SOMOSTODOSSUS

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.