Em saúde, a melhor escolha é a prevenção

Humberto Dantas

15 Março 2018 | 11h21

Autoria: Karla Santa Cruz Coelho é médica, diretora de Normas e Habilitação de Produtos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e líder MLG.

Doenças crônicas são responsáveis por mais da metade das mortes no mundo e, nos próximos 25 anos provocarão, globalmente, mais de dois terços de todos os óbitos. Tão grave quanto a rápida progressão dessas enfermidades é o fato de tal avanço ocorrer a despeito dos fatores de risco que as desencadeiam serem preveníveis, como no caso da obesidade – segundo fator mais importante para a carga global de doenças.

O impacto do excesso de peso e da obesidade na vida das pessoas traduz-se em diabetes, câncer, doenças osteoarticulares e patologias relacionadas à saúde mental, como a depressão, afetando a qualidade de vida, sobrecarregando e encarecendo os sistemas de saúde e levando o Brasil a crescentes índices de adoecimento e de mortalidade. Para dimensionar um dos aspectos do problema, vejamos os números de cirurgias bariátricas: em dois anos (entre 2014 e 2016), houve um crescimento de 20% nesse tipo de procedimento somente entre beneficiários de planos de saúde.

Fica clara a importância de políticas públicas que busquem não apenas remediar o problema, mas também provocar uma reflexão sobre como os indivíduos fazem as suas escolhas quando se trata de saúde. No caso do excesso de peso, é importante analisar o que leva as pessoas a adotarem um estilo de vida e uma dieta mais ou menos saudáveis e a serem mais ou menos sedentários. É urgente uma séria discussão sobre as causas que estão levando o Brasil ao alarmante crescimento da obesidade e à implementação de medidas efetivas para combater tais problemas.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) vem traçando estratégias para estimular a organização da sua rede de atenção ao cuidado ao estimular as operadoras de planos de saúde a desenvolverem ações focadas em prevenção. Nesse sentido, as iniciativas têm prosperado: há cerca de dez anos não existiam mais de 50 programas voltados à prevenção, hoje são mais de 1,5 mil. Em 2017, a ANS elaborou o Manual de Enfrentamento da Obesidade na Saúde Suplementar. O grupo de trabalho contou com diversos especialistas e estabeleceu diretrizes e protocolos para o rastreio e a abordagem dos pacientes com obesidade. Entre as propostas, está a recomendação de que o cálculo do índice de massa corporal (IMC) seja realizado em todos os pacientes que procuram assistência médica, assim como ações em programas de prevenção precoce em crianças e adolescentes em risco de desenvolver a obesidade infantil.

Hoje, temos um modelo de saúde que estimula a realização de procedimentos e exames e não o cuidado e a atenção ao paciente. Tal modelo, somado ao sedentarismo de grande parcela da população, torna-se extremamente prejudicial para o enfrentamento da obesidade. Em um país com tantas diferenças sociais, temos que pensar, por exemplo, em levar atividades físicas para todas as camadas da população e em medidas para facilitar e estimular o acesso da população a alimentos saudáveis e nutritivos. Isto é, são necessárias ações conjuntas e multifatoriais que ataquem o problema em diversas frentes.

É importante sair do sedentarismo, começar a se movimentar. As lideranças do setor de saúde precisam levar em conta o fato de que as doenças crônicas são as maiores causas de morte no mundo e perceber que as organizações têm a capacidade de agir, que a colaboração e a formação de parcerias podem nos ajudar a sair da inércia e a iniciar um movimento de inovação que contribuirá para uma resposta mais coordenada para esse problema crítico que afeta a todos nós.