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Em busca da liderança perdida

Humberto Dantas

15 de outubro de 2020 | 10h41

Autor do texto:

Washington Bonfim é Doutor em Ciência Política (IUPERJ) e Professor Licenciado do Depto. de Ciências Sociais (UFPI). Foi coordenador  do GT de Políticas Públicas, da Sociedade Brasileira de Sociologia, de 2013 a 2017 e Secretário de Educação de Teresina entre 2005 e 2010, e de Planejamento entre 2013 e 2017. Foi Diretor do Programa Juntos, da Comunitas, até abril de 2020. É líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública do Centro de Liderança Pública (CLP).

No texto, Washington discorre sobre as incertezas e as questões centrais que rondam o cenário dos candidato eleito após novembro. Para ele, nunca foi tão necessário uma liderança adaptativa e líderes inspiradores. Também acredita que ao eleitor,  cabe o olhar a propostas que possibilitem atravessar este tempo confuso e desafiador. Leia:

Parece chover no molhado afirmar que 2020 tem sido um ano difícil, crítico e desafiador, no mundo inteiro. A pandemia causada pelo Sars Cov-2, surgida no final de 2019 se espalhou pelo mundo e vem desafiando comportamentos individuais, a ciência, os sistemas de saúde e os governos em escala global.

Aprendemos sobre as diferentes respostas de cada país, os fracassos, sucessos, polarizações e narrativas diversas que circundam a doença, que ainda nem conhecemos em sua inteireza. Há imunidade após o indivíduo tê-la contraído? Por qual razão alguns são mais afetados que outros? Que tipo de doença realmente ela é? Que sequelas deixa em determinados pacientes? A vacina realmente funcionará? Se sim, por quanto tempo? Como será feita a sua produção, distribuição e aplicação pelo mundo? Quantas versões estarão disponíveis para a população mundial?

E já estamos no último terço de 2020, é hora de olhar para o futuro próximo, 2021 e saber o que dele esperar, que planos traçar, como nos portar diante de tantas incertezas. Mas, antes de chegarmos lá, temos pelo menos uma decisão importante a tomar, pois seremos chamados às urnas em novembro, para elegermos prefeitas e prefeitos que comandarão pelos próximos quatro anos os 5.568 municípios do país.

E as incertezas que vivemos serão um componente importantíssimo do planejamento da gestão pública municipal nos próximos quatro anos. Algumas questões centrais já têm sido objeto de discussão intensa, tais como o retorno às aulas, a persistência dos efeitos econômicos da pandemia sobre a atividades locais e a arrecadação municipal e os impactos diversos sobre a população.

O ponto importante a observar nesta circunstância é que os planos de governo e eventuais promessas dos vários candidatos têm de ser medidos por esta régua, incerta e instável! Ou seja, os eleitores têm hoje um motivo muito razoável para fazerem inúmeras ponderações sobre as propostas de cada candidata(o) e, mais ainda, eles próprios têm de ter em vista que suas plataformas, uma vez eleitos, estarão sob intenso “ataque” de elementos de uma realidade que é absolutamente imprevisível a esta altura.

Numa análise rápida, todos principais mecanismos de proteção às pessoas, empresas e governos, instaurados em função do estado de calamidade decretado em 2020, findarão no próximo dia 31 de dezembro e a volta ao “antigo normal” da proteção social, auxílio e crédito às empresas e governos, deve chegar em meio a uma retomada econômica que não se pode ainda avaliar a dimensão.

Imagine então o cenário de um candidato eleito para um primeiro mandato, seja de situação ou de oposição, que desafios iniciais terá de enfrentar. Nos municípios menores, em que não há segundo turno, a transição será de cerca de 45 dias. Nos municípios que experimentarem o segundo turno, 32 dias, apenas!

E esta transição deverá estar informada justamente por decisões importantes que caberão ao governo federal e ao Congresso Nacional: reforma administrativa, PEC emergencial, novo programa de renda para a população vulnerável, novo imposto (?), teto de gastos, manutenção de apoio às unidades federadas. Além de entender as circunstâncias locais, a pauta nacional trará elementos importantes de planejamento da gestão como um todo, considerando que o tempo que temos até o fim deste ano legislativo é bastante escasso, diante de tantas demandas estratégicas.

Em resumo, embora todos os governos estejam no mesmo barco, estaduais principalmente, a tarefa dos novos prefeitos, especialmente os que se elegerão para um primeiro mandato, será especialmente difícil. O que deve chamar a atenção do eleitor para o conjunto de temas e compromissos que cada um deles vem levantando na
campanha iniciada no final de setembro.

Creio que não é exagerado dizer que vivemos um tempo que não encontra precedente em nossa memória política e administrativa, mesmo que voltemos longe em nosso passado. Vão se somando, em tempestade perfeita, crises sanitária, política, econômica e polarização política, em que se disputam alternativas de saída para um outro lugar de nossa convivência.

Ao eleitor caberá, em meio ao descrédito que a política e administração pública vivem agora, discernir entre candidatos e propostas que podem nos ajudar a atravessar este tempo confuso, perturbador e ao mesmo tempo, desafiador. De minha parte, escrevo este texto como um alerta, certo de que nunca precisamos tanto do conceito de “liderança adaptativa” e de líderes que inspirem nossas cidades na travessia deste caminho, que reúne tantas incertezas.

Nunca o eleitor teve também poder, mas talvez em nenhum outro momento, ele esteja tão alheio e descrente de sua capacidade de fazer algo novo, de ver os problemas como oportunidades de construirmos uma sociedade menos desigual!

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