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Educação inclusiva, parceria público-privada, uma experiência através da música

Karla Santa Cruz Coelho é líder MLG, Médica, Professora de Saúde Coletiva do Curso de Medicina da UFRJ-Macaé e Ex-Diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Mestre Mangueirinha é músico, educador e discente do Conservatório Brasileiro de Música. Rodrigo Scofield é músico e educador, discente do Conservatório Brasileiro de Música.

18 de setembro de 2020 | 10h00

O processo de inclusão de pessoas com deficiência dentro da sociedade passou por diversas fases na história da humanidade. Percebemos então que historicamente a pessoa com deficiência trava a sua luta por um lugar na atual sociedade, que ainda o vê em muitos casos como sinônimos de fragilidade e pena, ou ainda como um problema, à ser resolvido ou à ser escondido.

É com muita tristeza que vemos nossa sociedade contemporânea ainda exibindo muita ignorância e preconceito, nesse tipo de assunto, visto que, muitas vezes se desconhece completamente os diferentes graus e características de cada deficiência específica partindo-se de um pressuposto que o sujeito é incapaz de participar da vida
cotidiana. Na verdade, excluímos todo um grupo de pessoas que poderia interagir tanto nas salas de aula quanto futuramente no mercado de trabalho.

Não é porque o aluno não enxerga que ele não vai ter capacidade cognitiva de aprender na sala de aula, ou não terá a capacidade motora para exercer uma atividade laboral. Sendo assim, a preocupação com a formação intelectual e a capacitação das pessoas com deficiência deve ser sim uma prioridade de todos na sociedade e uma política pública de governo, pois isso levará a um maior desenvolvimento de toda estrutura socioeconômica do Brasil.

Mesmo com todo esse caminho ainda a ser percorrido, observamos cada vez mais um interesse por mudança, por parte principalmente dos educadores, que com o advento da internet vem tendo acesso à cada vez mais informação de qualidade, procurando estar atentos a essa nova mudança de diretrizes e rumos para uma educação
mais inclusiva.

O Projeto Bateria do Instituto Tim é uma parceria público-privada, entre a empresa de telefonia Tim celular e o teatro com gestão municipal da cidade do Rio de Janeiro que acontece no Centro de Referência da Música Carioca localizado na Tijuca zona norte da cidade. Esse teatro abriga um projeto fundamental de inclusão social da criança com deficiência. Ele acontece através da inclusão através da música, mais especificamente a percussão do carnaval, na formação de um coletivo de bloco carnavalesco que ministra uma oficina musical às crianças portadoras de todo tipo de deficiência.

Inicialmente trabalhando com crianças deficientes auditivos, essa oficina idealizada pelo Mestre Mangueirinha, discente do Conservatório Brasileiro de Música – CBM, inclusive, desde a sua fase inicial de criação contou com uma equipe técnica especializada, desde os professores e monitores até profissionais específicos designados
como intérpretes da linguagem de sinais, assim como coordenadores dos projetos além do âmbito educacional da oficina em si.

É importante ressaltarmos que com o passar dos anos, o projeto foi aceitando crianças com todo tipo de deficiência, desde autistas, crianças com Síndrome de Down, com paralisia motora e cerebral, etc… Através de uma didática bem objetiva e direta, usando como ferramenta o método do Passo do Lucas Ciavatta (PAZ ,2013) os monitores e professores utilizam-se da comunicação imediata do som e vibração tambor, como instrumento de criação do ambiente sonoro que é trabalhado como os alunos em sala. Partindo de exercícios bem simples e dinâmicos baseados nos ritmos brasileiros e na instrumentação dos blocos de carnaval (surdo, caixa, tamborim, agogô, repique, chocalho), os alunos trabalham a coordenação motora básica, a autoestima e a parte emocional porque percebem e desenvolvem suas habilidades.

Conhecendo toda a equipe de idealizadores do projeto desde o início, percebemos o impacto que a música tem na vida dessas crianças, e como um quadro muito grave de autismo ou de algum comprometimento motor pode ser minimizado quando trabalhamos diretamente com o acolhimento e o afeto, enfocando o cuidado pra cada um individualmente.

É muito gratificante, por exemplo, poder testemunhar uma criança que não abraça ninguém, nem a mãe, e com a participação nas aulas recriou seus laços afetivos e voltou a falar e até abraçar os pais. Contando com instalações totalmente adaptadas à acessibilidade, espaços adequados para receber alunos com diversas dificuldades de locomoção, equipados com rampas e um imenso jardim para apresentações ao ar livre, o projeto proporciona para
esse grupo de alunos a possibilidade da apresentação do que estão trabalhando em sala de aula para todos os pais e público interessado, através de ensaios abertos e festas de fim de ano.

Enfim, um exemplo de sucesso de inclusão social de crianças com deficiência, já que muitos desses alunos têm uma situação de vulnerabilidade grande, sem muitas oportunidades, abrindo-se a possibilidade de ressignificação das relações entre os pais e filhos e deles com outros grupos. A experiência de trabalhar com esse grupo se mostra
um aprendizado constante e infinito.

Sendo assim, é necessário notarmos que nosso papel de educadores é entender que facilitando à acessibilidade, e a comunicação seja ela em Libras, usando intérpretes ou Braile ou fones de ouvidos, a adaptação tem que ser feita também por nós, aprendendo a dialogar cada vez mais com essa rica diversidade.

Partindo do pressuposto, do ser diferente é normal, a educação especial tem ganhado muito em importância e atenção por parte de todos os envolvidos, sejam eles coordenadores educacionais, educadores de diversas áreas e políticos que normatizam e atualizam as leis para sempre se adequar as necessidades que sempre estão mudando.

Pessoas com deficiência finalmente têm sido levadas em consideração de maneira séria e responsável na educação facilitando os acessos e movimentações tanto em sala de aula quanto no trânsito e na vida cotidiana, sob pena de punição, se houver descumprimento da lei. Fazer o deficiente participar da atividade junto com outros alunos e não mostrar diferenciação entre eles é fundamental para que não haja nenhum desconforto e nem frustração por parte de todos que estão fazendo a atividade.

Podemos concluir que temos um longo caminho pela frente, mas já desenvolvemos bastante a capacidade de olhar para o outro, com generosidade e solidariedade, principalmente no campo da deficiência. O fator obrigatoriedade da inclusão por lei já é um bom começo.

Enquanto não entendermos que o desenvolvimento de um país só se dará com a igualdade de oportunidade para todos, acabando com a desigualdade social que pressupõe uma hierarquia de classes sociais num sistema que oprime e exclui as pessoas, não teremos protagonismo nem autonomia nas decisões político-econômico-
sociais. A única solução é educação para todos, sem exceção.

A educação de qualidade com local adequado é um direito de todos, sendo deficiente ou não. A importância da preparação de todos os educadores, leis atualizadas, monitoramento institucional, acompanhamento psicológico de todos os envolvidos são pilares para fazer com que o sistema de educação funcione de forma justa e sem
desigualdade de oportunidades.

Iniciativas como essa do Projeto Bateria do Instituto Tim devem ser multiplicadas por todo país, pois implica diretamente numa valorização da nossa identidade brasileira, e orgulho de ser quem somos sem o viés eurocêntrico que sempre foi determinante na nossa formação como cidadãos, além de contribuir ativamente no
espírito solidário de cuidado e inclusão.

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